A ecofeminista indiana enfrenta a máquina mais mortal jamais criada

A principal voz do socioambientalismo internacional vem de uma mulher. E, para ela, as mulheres são a chave da mudança.

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Meados dos anos 1970. Mandal, Índia. Um grupo de homens munidos de serras e tratores se aproxima das árvores próximas ao vilarejo. Com autorização do governo, eles pretendem cortar centenas de árvores para levar a uma fábrica longínqua de raquetes de tênis. Uma menina vê a cena e corre para o povoado para avisar que a floresta que garante o sustento de todos está para ir abaixo. Vinte e sete mulheres atendem o chamado e enfrentam os madeireiros desarmadas. Discutem, argumentam, mas os homens começam a gritar e a abusar delas, ameaçando-as com armas, enquanto vão em direção aos troncos. Em um ato de bravura extrema, as mulheres começam a abraçar as árvores e permanecem lá por quatro horas até que os madeireiros desistissem. No dia seguinte, quando eles retornaram para cumprir o serviço, se depararam com mais gente ainda abraçando as árvores. As notícias tinham se se espalhado pelos vilarejos dos arredores e a população resistiu por quatro dias até expulsar os invasores.

Essa batalha foi apenas um capítulo de uma guerra contra o desenvolvimentismo conhecida como Movimento Chipko. Este foi o batismo político de Vandana Shiva, escritora com mais de 20 livros publicadas e figura central do movimento altermundista. Elas não fazia parte daquele pequeno grupo inicial de mulheres e nem veio da vida camponesa, mas juntou-se à causa e a expandiu, no ativismo e nas ideias. Física com doutorado em filosofia, é membro do comitê científico da Fundación Ideas. Ganhou prêmios da Livelihood Award ( nobel alternativo da paz) e  da Organização Internacional para uma Sociedade Participativa.

Vandana Shiva escreve e fala sobre agricultura, alimentação, biodiversidade, bioética e feminismo. Colaborou em organizações de ecologia política e participativa na Ásia, África, América Latinta e Europa.

Grande parte de sua vida foi dedicada a defender a biodiversidade e o conhecimento dos povos tradicionais do planeta. Ficou famosa sua luta contra as patentes de sementes, quando uma megaempresa privatiza plantas, obrigando os agricultores à dependência completa e colocando em risco a segurança alimentar mundial.

Em 1982, a cientista fundou na Índia o Research Foundation for Science, Technology and Ecology, que ela define como um movimento que faz pesquisa à serviço dos movimentos populares e rurais.

Ecofeminismo

Vandana Shiva fundou a organização ecofeminista Navdanya, que, desde 1984, promove a conservação da biodiversidade, a reforma agrária, a agricultura orgânica e os direitos dos povos tradicionais. O Navdanya faz parte do movimento Terra Madre Slow Food e está espalhado ao longo de 16 estados da Índia. Ajudou a formar mais de 50 bancos de sementes comunitários, treinou meio milhão de agricultores em agricultura sustentável, revivendo técnicas tradicionais, e ainda estabeleceu uma imensa rede de comércio justo de compra direta do produtor.

De acordo com Vandana Shiva, em seu artigo Empowering Women, uma abordagem mais produtiva e ecológica da agricultura deve passar por engajar as mulheres e combater a lógica patriarcal de exclusão de gênero. Para ela, um sistema cujo foco é a mulher poderia modificar o mundo positivamente e que o feminismo tem grande responsabilidade em confrontar a destruição ambiental.

Segundo a indiana, o roubo da biodiversidade pelos colonizadores europeus foi uma ataque ao trabalho de séculos que as mulheres de povos tradicionais fizeram de preservar e manter as sementes.

Monoculturas da mente

Para Vandana Shiva, as monoculturas agropecuárias que destroem os solos e acabam com a água são um desdobramento das “monoculturas da mente”. O desenvolvimentismo se alastra através de diferentes ideologias políticas e culturas e é uma máquina de morte a qual se deve combater com diversidade, de culturas humanas e agrícolas.

A autora ainda enfrentou a Monsanto e iniciou um movimento feminista internacional chamado “Mulheres Diversas pela Diversidade” que enfrentou os regulamentos inescrupulosos que a Organização Mundial de Comércio fazia em detrimento da vida, das mulheres e dos países pobres.

“Os povos tropicais também se tornam um lixo histórico descartável. Em lugar do pluralismo cultural e biológico, a fábrica produz monoculturas sem sustentabilidade na natureza e na sociedade. Não há lugar para o pequeno (…) A diversidade tem de ser erradicada como uma erva daninha e as monoculturas uniformes – de plantas e pessoas – têm de ser administradas de fora porque não são mais autorreguladas e autogeridas (…)

Não há sobrevivência possível para a floresta ou seu povo quando eles se transformam em insumo para a indústria. A sobrevivência das florestas tropicais dependa da sobrevivência de sociedades humanas cujo modelo são os princípios da floresta”

Vandana Shiva, em Monoculturas da Mente

Evidente que toda essa movimentação não passou incólume, já que a máquina mais mortal jamais criada – o desenvolvimentismo – age como um rolo compressor e costuma acabar com seus oponentes, financeiramente ou mesmo à bala (como é comum no Brasil). Em 2004, vazou um documento oficial do governo indiano, destinado ao primeiro ministro, acusando Shiva e o Navdanya de estarem contra os interesses nacionais e recomendando vigilância.

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Dica de filme – Para onde foram as andorinhas?

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Sinopse: O filme aborda como os índios do Parque Nacional do Xingu estão lidando com as mudanças climáticas em seu território, o que tem gerado o desaparecimento de espécies da fauna e da flora. As evidências de que o clima está mudando são sentidas em todas as atividades cotidianas – alimentação, sistemas de orientação no tempo e rituais. Questionam como será o mundo que deixarão para seus filhos.

Por que assistir? Ao abordar de forma sensível os problemas enfrentados pelos índios e trazer dados sobre a situação do desmatamento no entorno do Xingu, o filme proporciona uma reflexão mais ampla sobre o futuro do país e as mudanças climáticas no mundo.

Destaques: O filme foi exibido e aplaudido durante a Conferência do Clima da ONU (COP) 21, em Paris, em dezembro de 2015 e recebeu os prêmios de Melhor Curta Metragem no Festival Ambiental das Ilhas Canárias (2016), Refúgios e Mudanças no Festival ENTRETODOS de Direitos Humanos (2016) e de Melhor Curta Metragem FestCine Amazônia (2016).

Onde assistir:

EVENTO: O filme será exibido também no Observatório do Amanhã, no Rio de Janeiro, às 15h do dia 14 de fevereiro. Após a exibição do filme, o físico Paulo Artaxo, um dos maiores especialistas em mudanças climáticas do mundo, fará um bate-papo com o público. Mais sobre o evento aqui: https://museudoamanha.org.br/pt-br/para-onde-foram-as-andorinhas

INTERNET: https://vimeo.com/179228552

Ficha técnica:

  • Direção: Mari Corrêa
  • Roteiro: Paulo Junqueira
  • Produção: Instituto Catitu e Instituto Socioambiental
  • País: Brasil
  • Ano: 2016
  • Duração: 22min.

Mais informações sobre o filme:

https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/premiado-curta-lancado-para-internet-alerta-para-mudancas-climaticas-no-xingu

* No PEDRA acreditamos que filmes são uma boa forma de estimular o debate e ajudar a criar interesse por certos temas.

 

Belo Sun: setores público e privado se unem para destruir a Amazônia

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Afastada apenas 11km da usina-tragédia de Belo Monte, uma imensa área do Xingu deve ser destruída, colocando em risco a floresta, a biodiversidade e os povos ribeirinhos e indígenas. Apesar de a Defensoria Pública do Pará ter pedido a suspensão do projeto, o Governo do Pará concedeu licença de extração de ouro para o empreendimento Belo Sun neste dia 2 de fevereiro.

Para conter 96 milhões de metros cúbicos de rejeitos tóxicos, Belo Sun pretende construir uma imensa barragem, cujo laudo de segurança foi assinado pelo mesmo engenheiro responsável por atestar a estabilidade da barragem do Fundão, em Mariana. Aquela acabou sendo a maior tragédia socioambiental da história do país.

A ganância que dá força ao projeto, apesar dos danos que pode provocar, se explica: a empresa pretende extrair 150 toneladas de ouro em 17 anos no município de Senador José Porfírio. Ao todo, o projeto Belo Sun tem investimento de R$ 1,5 bilhão para destruir uma área equivalente a 1.700 campos de futebol.

A Belo Sun é canadense e controlada pelo grupo Forbes & Manhattan, um banco mercantil de capital privado que explora mineração pelo mundo. A empresa anunciou a concessão da licença antes mesmo do governo paraense formalizar a medida. Uma tabela, também publicada pela empresa, já previa a concessão da licença nesta época, o que deixa em dúvida a regularidade da avaliação da licença.

Como se pode depreender, não é apenas o setor privado que se empenha na destruição da Amazônia e em prol dos lucros. O ouro de Belo Sun deve render R$ 235 milhões por ano em impostos, o que poderia explicar o empenho do Departamento Nacional de Produção Mineral em viabilizar o projeto.

Portanto, mais uma vez vê-se uma espécie de aliança entre os setores público e privado em prol do desenvolvimentismo predatório, gerador de desigualdade social e de perda de biodiversidade. Sem intensa mobilização da sociedade civil, o Xingu seguirá rumo à destruição.

Leia mais sobre Belo Sun:

Qual a melhor forma de evitar o desmatamento?

Estudo revela que área habitadas por povos indígenas ficam melhor protegidas e que países que não garantem direitos e terras aos povos tradicionais deixam suas florestas mais vulneráveis

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Houve um tempo em que conservar florestas significava separar e proteger áreas de “mata virgem” desabitada. Este método até pode ser uma boa ferramenta em um caso ou outro, mas promover a justiça socioambiental parece ser uma providência ainda melhor na evitação do desmatamento. Um estudo internacional afirmou que territórios habitados por povos indígenas são mais eficazes na prevenção do desflorestamento, favorecendo a contenção do aquecimento global.

Segundo o relatório “Garantindo direitos, combatendo a mudança climática: como Fortalecer os Direitos Florestais Comunitários”, do World Resources Institute, quando determinado governo garante os direitos e terras desses povos, há maiores chances de redução do desmatamento.

O documento afirma que, no período entre 2000 e 2012, o desmatamento nas reservas de povos tradicionais da Amazônia foi de 0,6%, enquanto nas áreas vizinhas desocupadas a taxa chegou aos 7%. Os pesquisadores concluíram que, na ausência de garantias legais e posse de terras de populações indígenas e tradicionais, as florestas ficam mais suscetíveis à ação desmatadora.

A partir desses dados, pode-se presumir que, quanto mais engajada em um sistema econômico tradicional e alternativo, maior será o nível de proteção da floresta que determinada comunidade poderá prover. Por isso, é importante a garantia de direitos e terras de modo que os povos tradicionais possam manter seu estilo de vida e sua cultura fortalecidos. Esta parece ser a maneira mais eficaz de evitar que eles sejam atingidos pelo rolo compressor do desenvolvimentismo e, também, de manter as florestas protegidas.

Leia mais:
Relatório Garantindo direitos, combatendo a mudança climática: como Fortalecer os Direitos Florestais Comunitários 
(em inglês)

75% dos primatas desaparecerão em 50 anos, aponta estudo

Expansão da fronteira agrícola em regiões desiguais e pobres é apontado como principal problema.

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Um estudo publicado na revista Sciences Advances, reunindo mais de 30 primatologistas, concluiu que os primatas não-humanos estão desaparecendo em ritmo acelerado. Se continuar a devastação, três quartos de todos os primatas terão desaparecido em meio século.

Os pesquisadores destacaram que a principal causa da extinção é a expansão da fronteira agrícola para atender o mercado global. Entre 1990 e 2010, a agricultura humana consumiu 1,5 milhão de quilômetros quadrados nos principais habitats dos primatas. Nessas regiões, ao todo, perderam-se dois milhões de quilômetros quadrados de cobertura florestal.

O estudo não só alerta para o problema, mas tenta propor soluções. Em entrevista ao El País, o primatologista Alejandro Estrada, um dos responsáveis pelo estudo, afirmou que há necrssidade de resolver fatores sociais e políticos para conter a extinção de primatas.

“O denominador comum dessas regiões são os altos níveis de pobreza e desigualdade, a perda de capital natural devido às demandas do mercado global, a má gestão, a falta de segurança alimentar e a escassa alfabetização. Cuidar desses aspectos é uma prioridade para assegurar a conservação dos primatas”, defendeu o especialista.

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Ministério não revela lista contra trabalho escravo no Brasil porque geraria desemprego

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O Ministério do Trabalho não divulgou o relatório conhecido como “lista suja”, que identifica “empregadores” flagrados com mão de obra análoga à escravidão.

A divulgação foi ordenada pela Justiça do Trabalho no dia 19 de dezembro, em caráter liminar, para que o governo publicasse a lista em até 30 dias. Até agora, no entanto, o “ministro” Ronaldo Nogueira desobedeceu a ordem da Justiça.

O Ministério do Trabalho informou que ‘‘eventuais inclusões [de pessoas e empresas na lista] indevidas não apenas redundariam em injustiças com graves consequências a cidadãos e empresas, gerando desemprego”. 

Ou seja, um ministério do atual “governo” repete um discurso de outrora e afirma que abolir a escravidão é ruim porque gera desemprego.

A “lista suja” é um mecanismo elogiado pela ONU como um dos mais importantes instrumentos de combate ao trabalho escravo no Brasil e citada como exemplo para o mundo. Ela foi criada em 2003 com intuito de dar visibilidade e transparência ao problema do trabalho análogo à escravidão.

Em 2014, o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, atendeu a um pedido de liminar de uma associação de incorporadoras imobiliárias e suspendeu a divulgação da lista. Mas a proibição foi desfeita em 2016, com decisão da ministra Carmen Lúcia.

Os principal empregador de trabalho escravo no Brasil é o agronegócio, nos setores de pecuária e café, além do setor madeireiro.

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Imagem: Trabalhadora rural canavieira. Paraíba, 198-. Fundo Voz da Unidade, [SIN], foto 2424. Acervo Arquivo Edgard Leuenroth

 

70% do desmatamento na Am. Latina é culpa do agronegócio. E este é apenas um dos problemas.

No Brasil, o agronegócio ocupa muito espaço e não alimenta nem 30% da população. Ao contrário, forma milícias para matar gente, lidera casos de trabalho escravo e intimida opositores. 

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Imagine uma organização feita por uma minoria de indivíduos que é dona da maioria das terras. Cujos membros estão entre os campeões de trabalho escravo e desmatamento e chegam a formar milícias de terroristas armados. Uma organização que tem representantes na política que se empenham em intimidar opositores. Este é o agronegócio no Brasil.

Um relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), ligada à ONU, demonstrou veementemente que o agronegócio está destruindo recursos da América Latina. Segundo a agência, 70% do desmatamento ocorrido na região entre 2000 e 2010 se deu por culpa dos grande produtores rurais.

Segundo outro relatório internacional, as comoditties que mais causaram destruição de florestas foram, nesta ordem: gado, soja, óleo de palma e madeira.

Se não bastasse a devastação causada por esse setor econômico, pesa sobre ele o fato de que concentra terras, deixando gente sem trabalho e sem possibilidade de autossustento. Segundo pesquisa da OXFAM, 1% dos produtores rurais possuem 45% de toda a terra no Brasil.

Toda essa concentração de terras e devastação podem até servir para aumentar o Produto Interno Bruto, mas o brasileiro, ao que parece, não come PIB. Vem da agricultura familiar 70% de toda a alimentação dos brasileiros, enquanto a destruição do agronegócio serve para exportação e para fazer ração de vaca.

Se isso tudo não bastasse, o agronegócio brasileiro é responsável por formar grupos armados que assassinam pequenos produtores, índios, quilombolas e ativistas socioambientais. Provavelmente graças a isso, o Brasil foi campeão de assassinatos de ativistas da terra e do meio ambiente em 2015, com 50 casos no ano.

Vários setores do agronegócio estão entre os principais acusados de trabalho escravo e seu braço político, a bancada ruralista, participou ativamente do golpeachment e do aprofundamento neoliberal de 2016. Esses parlamentares chegam a ameaçar a liberdade de expressão. Um de seus membros, o senador Ronaldo Caiado, propôs instaurar uma comissão para intimidar uma escola de samba do Rio de Janeiro, cujo tema se mostrava favorável aos índios do Xingu e à preservação ambiental.

 

E o que pode ser feito quanto a isso?

  • Exigir, através de manifestações e organizações políticas, que os culpados por crimes (escravidão, assassinato, extração ilegal de madeira) sejam penalizados.
  • Reduzir ao máximo ou recusar o consumo de carne e produtos oriundos da pecuária.
  • Organizar-se politicamente pela base, em aliança com povos tradicionais e camponeses,  para formar blocos de resistência.
  • Preferir produtos orgânicos, certificados, da agricultura familiar. Tentar comprar direto do produtor.
  • Defender, nos meios a que tiver acesso, os grupos que sofrem com o rolo compressor do agronegócio.
  • Não apoiar candidaturas políticas que tenham ligação com a bancada ruralista ou que tenham objetivos desenvolvimentistas.
  • Outras formas de protesto? Por favor! Use a criatividade.

 

 

O glitter e a imbecilidade geral da nação

(Texto com opinião do autor, não necessariamente da página)

No país do carnaval, o texto a respeito dos malefícios do glitter recebeu enorme atenção e foi recebido com grande polêmica. Em três dias teve 40mil leitores, choveram compartilhamentos, comentários, e-mails, convite para entrevista (1) e uma reportagem em jornal (2).

Muitos leitores se preocuparam em entender mais, propuseram soluções, fizeram boas críticas e expuseram suas dúvidas. Em grupos virtuais sobre carnaval de rua, ao que parece, houve uma reação politizada e positiva de solidariedade mútua e grande empenho em mitigar os danos do glitter ao ambiente. Outra parte dos leitores prosseguiu suas vidas com indiferença. Curtirão o carnaval, com glitter ou não, sem se demorarem em pensamentos. Até aí, nada de novo no front. O que causou espanto foi a reação de uma terceira parcela de leitores.

Muitas postagens brotaram na internet criticando o texto do PEDRA por ser demasiado piegas, ingênuo, ou por estar deixando de criticar os “verdadeiros poluidores”. Estas críticas não seriam um problema se os autores tivessem se dado ao trabalho de ler os textos da página, que são baseados na Ecologia Social. Esses críticos tampouco leram a linha editorial do PEDRA, que diz que defende a “reversão dos problemas ambientais através de ações tanto políticas quanto pessoais e o reconhecimento da responsabilidade de todos na solução”.  Por conta dessa falta de leitura foi incluído um adendo, no texto do glitter, de que a página “não apoia a espera por uma solução que vá cair do céu. E por isso apoia tanto soluções macropolíticas quanto soluções a partir da ação individual e, principalmente, a partir de organização política de base”.

Fazer críticas politizadas sem se dar ao trabalho de ler é ruim, mas os problemas não pararam por aí. O conteúdo de certas críticas era realmente surpreendente. Houve um texto  “de esquerda” que defendia o glitter como libelo contra a repressão ao divertimento e à liberdade. Trata-se, precisamente, do mesmo argumento usado por americanos republicanos e brancos para defenderem a compra de seus carros Hummer (3). Criticados pela esquerda ambientalista porque seus veículos gastam absurdamente mais combustível, eles defendem exatamente o direito ao consumo individual não receber interferência de argumentos alheios ou coletivos.

Outro crítico defendeu que o uso do glitter, por ser sazonal, não fazia mal o suficiente ao ambiente. Mas pediu aos seus leitores que deixassem de usar esfoliantes porque estes também possuem microplásticos, mas são usados todo o ano. Este é um argumento preocupante porque, no caso, quem define a quantidade mínima que deve começar a preocupar todos nós e motivar uma ação de redução do consumo é ele, o crítico. Trata-se de uma métrica arbitrária, que denota uma proposta autoritária de lidar com o problema do lixo. A postagem que pregava que os esfoliantes são maus e o glitter é bom já tinha mais de 50 compartilhamentos em um dia.

O âmago de algumas destas críticas pareceu ser apenas uma reação à recepção positiva de um texto informal por grande parte do público, pois isto tira de alguns o poder de ter a Verdadeira proposta de ação política. Parece tratar-se de uma preferência estética por certo tipo de comportamento aparentemente anti-hegemônico. Se recusar o glitter subitamente tornou-se hegemônico, coisa comum, qual a graça de combater seus efeitos?

Interessante é que no texto do glitter veiculado pelo PEDRA, sugerimos que os leitores se divirtam “sem destruir”, pois o “espírito anárquico do carnaval não combina com prepotência”. Relendo agora, depois da repercussão, isso diz ainda mais coisa do que pretendia inicialmente.

O consumo consciente é um ato político, que pode pressionar por mudanças através do próprio sistema de mercado. Por isso, ele não é revolucionário e nem se propõe a ser, mas tampouco está impedido de ser combinado com outras ações de cunho mais evidentemente transformador. Há quem opte somente por militar em outras atividades e ignorar a importância da vida cotidiana e das práticas pessoais. Mas, como foi mencionado no texto do PEDRA, fazer um pouco nas práticas simples rotina é uma forma de fazer um mínimo.

O texto do glitter veio a público precisamente para dar mais um conhecimento, mais uma ferramenta. O leitor pode achar que esta recusa ao microplastico do glitter é uma forma boa de colaborar ou não. Ou pode ir além e deduzir daí que nosso sistema político-econômico fabrica itens tão poluentes e desnecessários como o glitter sem nenhuma mediação das pessoas. O leitor pode notar que as pessoas não têm poder algum sobre o que é produzido nem sobre as prioridades da produção. Quem sabe o que fará o leitor munido dessas informações? Contra a imbecilidade geral da nação, mais informação. E menos glitter, talvez.


(1) O convite da rádio CBN foi recusado porque esta não é uma página de reciclagem ou de gestão ambiental, mas de ecologia política. Não havia razão para dar fama à página enquanto especialistas no tema deixam de ser consultados.

(2)http://oglobo.globo.com/sociedade/sustentabilidade/ambientalistas-pedem-boicote-purpurina-glittler-no-carnaval-20820696?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilhar

(3) O Hummer é a versão civil do Humvee, um carro militar cuja estrutura imensa se movimenta com o gasto de muita gasolina.

Glitter e purpurina: a brincadeira de carnaval que destrói a vida nos oceanos

Depois da festa, quando você toma banho, as partículas de glitter coladas em seu corpo escorrem pelo ralo e se juntam às 8 milhões de toneladas de plástico que são lançadas nos oceanos todos os dias.

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É típico do carnaval de rua: corpos pouco vestidos mas com muita purpurina e glitter, em uma festa bonita e colorida. Mas o que acontece depois? Se você pensou ressaca, você acertou também. Mas a ressaca passa e a vida segue, enquanto o glitter e a purpurina vão aniquilando a vida por onde passam.

Microplásticos é como são chamados as minúsculas partículas feitas desse material que, basicamente, não se decompõe. No caso dos microplásticos usados na pele durante o carnaval, é comum que sejam feitos de copolímeros de plástico e folículos de alumínio. Depois da festa, quando você toma banho, as partículas coladas em seu corpo escorrem pelo ralo e se juntam às 8 milhões de toneladas de plástico que são lançadas nos oceanos todos os anos.

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Os microplásticos são do pior tipo possível. Por conta de seu tamanho, é praticamente impossível recolhê-los e, por essa razão, eles somam 85% de todo o plástico encontrado na natureza. Nas águas, os plásticos costumam matar peixes, tartarugas e outros seres, que os ingerem confundindo com comida. O glitter e a purpurina são ainda mais maléficos: podem ser engolidos desde pelos seres mais diminutos até os do topo da cadeia alimentar.

Além da morte dos animais, há ainda a questão econômica. Com a diminuição da vida aquática, toda a pesca fica prejudicada e, também, todos os povos e comunidades que dependem dela para sobreviver.

Você pode até pensar que as grandes indústrias poluem demais o ambiente e que um pouquinho de glitter não vai fazer esse mal todo. Mas, convenhamos, o glitter e a purpurina são tão necessários assim? Fazer menos que o mínimo para tornar o mundo melhor é realmente fazer muito pouco.

O espírito anárquico do carnaval não combina com prepotência. Neste carnaval, divirta-se sem destruir. Cuide dos oceanos e descuide do resto. Boa festa!

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Adendo Glitter: Muitas pessoas perguntaram se retirar as purpurinas com algodão e demaquilante resolveria a questão. Bem, plástico continua sendo plástico e pode levar mais de um milhão de anos para se decompor. Na terra ou na água, ele terá impacto. A política do consumo humano racional e autoconsciente costuma seguir os 4Rs: recuse, reduza, reutilize, recicle.

Adendo 2: A postagem deu enorme polêmica no Facebook. Houve até quem dissesse que o texto culpabilizou os indivíduos em detrimento dos grandes poluidores. Mas lá na parte “Sobre” está explícito, também, um dos eixos centrais da página: “Reversão dos problemas ambientais através de ações tanto políticas quanto pessoais e o reconhecimento da responsabilidade de todos na solução”. Ou seja, o PEDRA não apoia a espera por uma solução que vá cair do céu. E por isso apoia tanto soluções macropolíticas quanto soluções a partir da ação individual e, principalmente, a partir de organização política de base.

Comentário sobre a repercussão aqui.

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(Fonte da imagem: http://www.fauna-flora.org/wp-content/uploads/Microplastics-Credit-Joe-Dowling-Sustainable-Coastlines-Marine-Photobank.jpg)