A cooperação como um fator de evolução: um livro fundamental do biorregionalismo

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Quando alguns pretenderam enxergar na natureza a justificativa para aceitar os problemas e injustiças sociais, o russo Piotr Kropotkin reagiu. Todo o conhecimento empírico de suas viagens e pesquisas o levavam a uma inequívoca conclusão: na natureza, a cooperação era tão importante quanto a competição para a evolução. E na sociedade não haveria de ser diferente.

O livro “Mutualismo – um fator de evolução” foi escrito como resposta ao darwinismo social, sistema de ideias que deturpava a teoria da evolução das espécies. Os darwinistas sociais, e em especial o autor Thomas H. Huxley, consideravam a biologia de Darwin apenas parcialmente, ignorando partes fundamentais, e defendiam que a sociedade deveria derivar daquela ordem.  O darwinismo social justificava a desigualdade e a miséria do capitalismo como sendo natural, vinda do mundo biológico.

Kropotkin descreve suas próprias experiências em expedições científicas como geógrafo para mostrar que a competição por meios de sobrevivência não é o principal fator para a evolução das espécies. Ele examina outra interação ecológica, a cooperação, como essencial. O autor defende, sobretudo, que a competição intraespécies seria ainda mais rara, demorada, realizada ao longo de um tempo grande. Ou seja, não seria exatamente uma competição entre indivíduos, mas entre genes mais adaptáveis.

Sua análise não para na biologia. Além das comunidades animais, o autor fala das sociedades tribais, pré-feudais, das vilas medievais e das comunas. Sem negar a virtude da competição, ele demonstra que a ajuda mútua é a força motriz da sobrevivência e da evolução.

Na descrição da cooperação nas comunidades humanas, o autor acaba lançando a ideia do biorregionalismo, já posta em prática nas comunas apresentadas por ele. Um dos famosos propositores desta ideias, o poeta (ganhador do Pullitzer), linguista e antropólogo Gary Snyder, afirma que o livro de Kropotkin foi uma de suas inspirações:

“Eu estudei a escola kropotkiniana do anarquismo e seu grande livro, “Ajuda Mútua”. E o mutualismo meio que se transformou no corpo do projeto biorregional na minha cabeça. Como anarquismo é muito mal compreendido, eu geralmente uso o termo biorregionalismo atualmente”.

Entrevista de Gary Snyder para a Medium, em 2015

Na juventude, Snyder havia proposto a ideia de anarquismo budista, que se parece bastante com a ideia central do movimento do anarquismo verde. Kropotkin ainda seria grande influência nos trabalhos de um dos precursores do ambientalismo, Murray Bookchin (curiosamente, Snyder e Bookchin não se davam muito bem, apesar de versarem sobre temas semelhantes).

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O biorregionalismo defende que uma comunidade, independente de sua densidade, se estabeleça nos limites de uma região biológica (lençol freático, bioma, zona climática), de modo a depender dela e mantê-la. O modelo propõe uma economia e uma política descentralizadas, voltadas para atender as necessidades humanas sem deixar de manter a região biológica em condições saudáveis.

Para baixar o livro de Kropotkin, clique aqui: Ajuda-Mútua-um-fator-de-evolução-Piotr-Kropotkin

Ensaio de Murray Bookchin – Ecologia Social ou Ecologia Profunda: um desafio para o movimento ecologista

Murray Bookchin foi um autor prolífico e fundamental para a ecologia política verdadeiramente democrática. Neste ensaio, de 1987, ele tenta dar trilhos ao movimento ecologista, criticando as corruptelas e vertentes que ele considerou regressivas e até reacionárias.

Apesar de algumas críticas certeiras, seu temperamento aguerrido e crítico acaba por não fazer pontes com outras visões ecologistas e socialistas libertárias. Esse defeito não se sobrepõe de forma alguma ao pensamento original e vivaz do autor, cujas propostas são pouco conhecidas do público brasileiro.

O texto está no original em inglês. Disponível para download abaixo.

Ou, para saber mais sobre Bookchin, clique aqui.

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Como a questão ambiental expõe as semelhanças da esquerda autoritária com a direita

“À direita, você não precisa se preocupar com seus hábitos porque vai dar tudo certo contanto que botemos uns pobres na cadeia e nada interfira na economia. À esquerda, em sua versão zizekiana e autoritária, você não precisa se preocupar igualmente com seus hábitos porque o que interessa é colocar o grupo certo de pessoas certas no poder e eles te guiam para o Mundo Novo.”

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Volta e meia circula na internet um texto de um famoso filósofo propondo que mudanças comportamentais para reduzir o impacto da ação humana são inúteis frutos de um sentimento de culpa do superego. Não está errado o pressuposto de que é preciso repensar e reformular as bases do sistema. Mas o curioso é que, ao propor a primazia de uma mudança social abstrata sobre a ação prática de pequena escala, o autor defende a mesma atitude que a direita da economia liberal. “Não mexa com o indivíduo! Não mexa com o nosso consumo!”.

Outro ponto importante é que o autor do texto é o Slavoj Zizek. Trata-se de um filósofo divertido e genial, mas com opiniões políticas autoritárias e egocêntricas. Exemplos: disse preferir Trump a Hillary; defendeu mobilização militar contra entrada de imigrantes na Europa; optou por ser arqui-inimigo e fazer troça de um dos principais pensadores do século XX, Noam Chomsky.

O que a autoria do texto tem a ver com isso? Tudo. Porque é possível que o autor, sendo quem é, esteja propondo que o indivíduo não altere nada em sua rotina justamente para que espere a ação redentora e definitiva de uma Vanguarda Revolucionária ao estilo Lenin (de quem Zizek é fã). Ou talvez proponha que nós deveríamos deixar um novo Grande Líder pensar isso em nosso lugar e só o que resta a fazer é colocar esse Grande Líder no poder.

Invertendo o jogo de Zizek, não seria a fé na espera da mudança política um fruto de um sentimento de culpa do superego? Uma forma de aplacar a consciência enquanto se dirige um trecho que poderia ser percorrido de transporte público ou bicicleta?

Parece haver um quadro claro de proposta de ações ambientais de acordo com a visão política. À direita, você não precisa se preocupar com seus hábitos porque vai dar tudo certo contanto que botemos uns pobres na cadeia e nada interfira na economia. À esquerda, em sua versão zizekiana e autoritária, você não precisa se preocupar igualmente com seus hábitos porque o que interessa é colocar o grupo certo de pessoas certas no poder e eles te guiam para o Mundo Novo.

Olhando esse quadro, a parte autoritária da esquerda se assemelha bastante à direita. Já vimos essa semelhança no século XX (e vimos também que a direita liberal só propõe soluções democráticas desde que ninguém mexa na economia). Não é à toa que na Polônia, perto da terra natal de Zizek, um ministro do governo de extrema direita escolheu como alvo o mesmo grupo criticado pelo filósofo, ao dizer que sua missão é acabar com “a Europa apodrecida de vegetarianos e ciclistas”, além das energias limpas.

Enquanto o texto de Zizek conclui com abstrações e indicando a necessidade de um futuro comunista abstrato, a conclusão aqui será interpelar as pessoas para que partam para a ação, seja na mudança política ou na mudança de hábitos. Aliás, não há nada apolítico no mundo, muito menos nos nossos hábitos. As boas mudanças podem vir da escala individual, da macropolítica e, principalmente, dos grupos políticos independentes de base. E quando há urgência em achar soluções, não há razão para cortar opções.

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A ecofeminista indiana enfrenta a máquina mais mortal jamais criada

A principal voz do socioambientalismo internacional vem de uma mulher. E, para ela, as mulheres são a chave da mudança.

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Meados dos anos 1970. Mandal, Índia. Um grupo de homens munidos de serras e tratores se aproxima das árvores próximas ao vilarejo. Com autorização do governo, eles pretendem cortar centenas de árvores para levar a uma fábrica longínqua de raquetes de tênis. Uma menina vê a cena e corre para o povoado para avisar que a floresta que garante o sustento de todos está para ir abaixo. Vinte e sete mulheres atendem o chamado e enfrentam os madeireiros desarmadas. Discutem, argumentam, mas os homens começam a gritar e a abusar delas, ameaçando-as com armas, enquanto vão em direção aos troncos. Em um ato de bravura extrema, as mulheres começam a abraçar as árvores e permanecem lá por quatro horas até que os madeireiros desistissem. No dia seguinte, quando eles retornaram para cumprir o serviço, se depararam com mais gente ainda abraçando as árvores. As notícias tinham se se espalhado pelos vilarejos dos arredores e a população resistiu por quatro dias até expulsar os invasores.

Essa batalha foi apenas um capítulo de uma guerra contra o desenvolvimentismo conhecida como Movimento Chipko. Este foi o batismo político de Vandana Shiva, escritora com mais de 20 livros publicadas e figura central do movimento altermundista. Elas não fazia parte daquele pequeno grupo inicial de mulheres e nem veio da vida camponesa, mas juntou-se à causa e a expandiu, no ativismo e nas ideias. Física com doutorado em filosofia, é membro do comitê científico da Fundación Ideas. Ganhou prêmios da Livelihood Award ( nobel alternativo da paz) e  da Organização Internacional para uma Sociedade Participativa.

Vandana Shiva escreve e fala sobre agricultura, alimentação, biodiversidade, bioética e feminismo. Colaborou em organizações de ecologia política e participativa na Ásia, África, América Latinta e Europa.

Grande parte de sua vida foi dedicada a defender a biodiversidade e o conhecimento dos povos tradicionais do planeta. Ficou famosa sua luta contra as patentes de sementes, quando uma megaempresa privatiza plantas, obrigando os agricultores à dependência completa e colocando em risco a segurança alimentar mundial.

Em 1982, a cientista fundou na Índia o Research Foundation for Science, Technology and Ecology, que ela define como um movimento que faz pesquisa à serviço dos movimentos populares e rurais.

Ecofeminismo

Vandana Shiva fundou a organização ecofeminista Navdanya, que, desde 1984, promove a conservação da biodiversidade, a reforma agrária, a agricultura orgânica e os direitos dos povos tradicionais. O Navdanya faz parte do movimento Terra Madre Slow Food e está espalhado ao longo de 16 estados da Índia. Ajudou a formar mais de 50 bancos de sementes comunitários, treinou meio milhão de agricultores em agricultura sustentável, revivendo técnicas tradicionais, e ainda estabeleceu uma imensa rede de comércio justo de compra direta do produtor.

De acordo com Vandana Shiva, em seu artigo Empowering Women, uma abordagem mais produtiva e ecológica da agricultura deve passar por engajar as mulheres e combater a lógica patriarcal de exclusão de gênero. Para ela, um sistema cujo foco é a mulher poderia modificar o mundo positivamente e que o feminismo tem grande responsabilidade em confrontar a destruição ambiental.

Segundo a indiana, o roubo da biodiversidade pelos colonizadores europeus foi uma ataque ao trabalho de séculos que as mulheres de povos tradicionais fizeram de preservar e manter as sementes.

Monoculturas da mente

Para Vandana Shiva, as monoculturas agropecuárias que destroem os solos e acabam com a água são um desdobramento das “monoculturas da mente”. O desenvolvimentismo se alastra através de diferentes ideologias políticas e culturas e é uma máquina de morte a qual se deve combater com diversidade, de culturas humanas e agrícolas.

A autora ainda enfrentou a Monsanto e iniciou um movimento feminista internacional chamado “Mulheres Diversas pela Diversidade” que enfrentou os regulamentos inescrupulosos que a Organização Mundial de Comércio fazia em detrimento da vida, das mulheres e dos países pobres.

“Os povos tropicais também se tornam um lixo histórico descartável. Em lugar do pluralismo cultural e biológico, a fábrica produz monoculturas sem sustentabilidade na natureza e na sociedade. Não há lugar para o pequeno (…) A diversidade tem de ser erradicada como uma erva daninha e as monoculturas uniformes – de plantas e pessoas – têm de ser administradas de fora porque não são mais autorreguladas e autogeridas (…)

Não há sobrevivência possível para a floresta ou seu povo quando eles se transformam em insumo para a indústria. A sobrevivência das florestas tropicais dependa da sobrevivência de sociedades humanas cujo modelo são os princípios da floresta”

Vandana Shiva, em Monoculturas da Mente

Evidente que toda essa movimentação não passou incólume, já que a máquina mais mortal jamais criada – o desenvolvimentismo – age como um rolo compressor e costuma acabar com seus oponentes, financeiramente ou mesmo à bala (como é comum no Brasil). Em 2004, vazou um documento oficial do governo indiano, destinado ao primeiro ministro, acusando Shiva e o Navdanya de estarem contra os interesses nacionais e recomendando vigilância.

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Dica de filme – Para onde foram as andorinhas?

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Sinopse: O filme aborda como os índios do Parque Nacional do Xingu estão lidando com as mudanças climáticas em seu território, o que tem gerado o desaparecimento de espécies da fauna e da flora. As evidências de que o clima está mudando são sentidas em todas as atividades cotidianas – alimentação, sistemas de orientação no tempo e rituais. Questionam como será o mundo que deixarão para seus filhos.

Por que assistir? Ao abordar de forma sensível os problemas enfrentados pelos índios e trazer dados sobre a situação do desmatamento no entorno do Xingu, o filme proporciona uma reflexão mais ampla sobre o futuro do país e as mudanças climáticas no mundo.

Destaques: O filme foi exibido e aplaudido durante a Conferência do Clima da ONU (COP) 21, em Paris, em dezembro de 2015 e recebeu os prêmios de Melhor Curta Metragem no Festival Ambiental das Ilhas Canárias (2016), Refúgios e Mudanças no Festival ENTRETODOS de Direitos Humanos (2016) e de Melhor Curta Metragem FestCine Amazônia (2016).

Onde assistir:

EVENTO: O filme será exibido também no Observatório do Amanhã, no Rio de Janeiro, às 15h do dia 14 de fevereiro. Após a exibição do filme, o físico Paulo Artaxo, um dos maiores especialistas em mudanças climáticas do mundo, fará um bate-papo com o público. Mais sobre o evento aqui: https://museudoamanha.org.br/pt-br/para-onde-foram-as-andorinhas

INTERNET: https://vimeo.com/179228552

Ficha técnica:

  • Direção: Mari Corrêa
  • Roteiro: Paulo Junqueira
  • Produção: Instituto Catitu e Instituto Socioambiental
  • País: Brasil
  • Ano: 2016
  • Duração: 22min.

Mais informações sobre o filme:

https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/premiado-curta-lancado-para-internet-alerta-para-mudancas-climaticas-no-xingu

* No PEDRA acreditamos que filmes são uma boa forma de estimular o debate e ajudar a criar interesse por certos temas.

 

Belo Sun: setores público e privado se unem para destruir a Amazônia

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Afastada apenas 11km da usina-tragédia de Belo Monte, uma imensa área do Xingu deve ser destruída, colocando em risco a floresta, a biodiversidade e os povos ribeirinhos e indígenas. Apesar de a Defensoria Pública do Pará ter pedido a suspensão do projeto, o Governo do Pará concedeu licença de extração de ouro para o empreendimento Belo Sun neste dia 2 de fevereiro.

Para conter 96 milhões de metros cúbicos de rejeitos tóxicos, Belo Sun pretende construir uma imensa barragem, cujo laudo de segurança foi assinado pelo mesmo engenheiro responsável por atestar a estabilidade da barragem do Fundão, em Mariana. Aquela acabou sendo a maior tragédia socioambiental da história do país.

A ganância que dá força ao projeto, apesar dos danos que pode provocar, se explica: a empresa pretende extrair 150 toneladas de ouro em 17 anos no município de Senador José Porfírio. Ao todo, o projeto Belo Sun tem investimento de R$ 1,5 bilhão para destruir uma área equivalente a 1.700 campos de futebol.

A Belo Sun é canadense e controlada pelo grupo Forbes & Manhattan, um banco mercantil de capital privado que explora mineração pelo mundo. A empresa anunciou a concessão da licença antes mesmo do governo paraense formalizar a medida. Uma tabela, também publicada pela empresa, já previa a concessão da licença nesta época, o que deixa em dúvida a regularidade da avaliação da licença.

Como se pode depreender, não é apenas o setor privado que se empenha na destruição da Amazônia e em prol dos lucros. O ouro de Belo Sun deve render R$ 235 milhões por ano em impostos, o que poderia explicar o empenho do Departamento Nacional de Produção Mineral em viabilizar o projeto.

Portanto, mais uma vez vê-se uma espécie de aliança entre os setores público e privado em prol do desenvolvimentismo predatório, gerador de desigualdade social e de perda de biodiversidade. Sem intensa mobilização da sociedade civil, o Xingu seguirá rumo à destruição.

Leia mais sobre Belo Sun:

Qual a melhor forma de evitar o desmatamento?

Estudo revela que área habitadas por povos indígenas ficam melhor protegidas e que países que não garantem direitos e terras aos povos tradicionais deixam suas florestas mais vulneráveis

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Houve um tempo em que conservar florestas significava separar e proteger áreas de “mata virgem” desabitada. Este método até pode ser uma boa ferramenta em um caso ou outro, mas promover a justiça socioambiental parece ser uma providência ainda melhor na evitação do desmatamento. Um estudo internacional afirmou que territórios habitados por povos indígenas são mais eficazes na prevenção do desflorestamento, favorecendo a contenção do aquecimento global.

Segundo o relatório “Garantindo direitos, combatendo a mudança climática: como Fortalecer os Direitos Florestais Comunitários”, do World Resources Institute, quando determinado governo garante os direitos e terras desses povos, há maiores chances de redução do desmatamento.

O documento afirma que, no período entre 2000 e 2012, o desmatamento nas reservas de povos tradicionais da Amazônia foi de 0,6%, enquanto nas áreas vizinhas desocupadas a taxa chegou aos 7%. Os pesquisadores concluíram que, na ausência de garantias legais e posse de terras de populações indígenas e tradicionais, as florestas ficam mais suscetíveis à ação desmatadora.

A partir desses dados, pode-se presumir que, quanto mais engajada em um sistema econômico tradicional e alternativo, maior será o nível de proteção da floresta que determinada comunidade poderá prover. Por isso, é importante a garantia de direitos e terras de modo que os povos tradicionais possam manter seu estilo de vida e sua cultura fortalecidos. Esta parece ser a maneira mais eficaz de evitar que eles sejam atingidos pelo rolo compressor do desenvolvimentismo e, também, de manter as florestas protegidas.

Leia mais:
Relatório Garantindo direitos, combatendo a mudança climática: como Fortalecer os Direitos Florestais Comunitários 
(em inglês)

75% dos primatas desaparecerão em 50 anos, aponta estudo

Expansão da fronteira agrícola em regiões desiguais e pobres é apontado como principal problema.

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Um estudo publicado na revista Sciences Advances, reunindo mais de 30 primatologistas, concluiu que os primatas não-humanos estão desaparecendo em ritmo acelerado. Se continuar a devastação, três quartos de todos os primatas terão desaparecido em meio século.

Os pesquisadores destacaram que a principal causa da extinção é a expansão da fronteira agrícola para atender o mercado global. Entre 1990 e 2010, a agricultura humana consumiu 1,5 milhão de quilômetros quadrados nos principais habitats dos primatas. Nessas regiões, ao todo, perderam-se dois milhões de quilômetros quadrados de cobertura florestal.

O estudo não só alerta para o problema, mas tenta propor soluções. Em entrevista ao El País, o primatologista Alejandro Estrada, um dos responsáveis pelo estudo, afirmou que há necrssidade de resolver fatores sociais e políticos para conter a extinção de primatas.

“O denominador comum dessas regiões são os altos níveis de pobreza e desigualdade, a perda de capital natural devido às demandas do mercado global, a má gestão, a falta de segurança alimentar e a escassa alfabetização. Cuidar desses aspectos é uma prioridade para assegurar a conservação dos primatas”, defendeu o especialista.

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Ministério não revela lista contra trabalho escravo no Brasil porque geraria desemprego

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O Ministério do Trabalho não divulgou o relatório conhecido como “lista suja”, que identifica “empregadores” flagrados com mão de obra análoga à escravidão.

A divulgação foi ordenada pela Justiça do Trabalho no dia 19 de dezembro, em caráter liminar, para que o governo publicasse a lista em até 30 dias. Até agora, no entanto, o “ministro” Ronaldo Nogueira desobedeceu a ordem da Justiça.

O Ministério do Trabalho informou que ‘‘eventuais inclusões [de pessoas e empresas na lista] indevidas não apenas redundariam em injustiças com graves consequências a cidadãos e empresas, gerando desemprego”. 

Ou seja, um ministério do atual “governo” repete um discurso de outrora e afirma que abolir a escravidão é ruim porque gera desemprego.

A “lista suja” é um mecanismo elogiado pela ONU como um dos mais importantes instrumentos de combate ao trabalho escravo no Brasil e citada como exemplo para o mundo. Ela foi criada em 2003 com intuito de dar visibilidade e transparência ao problema do trabalho análogo à escravidão.

Em 2014, o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, atendeu a um pedido de liminar de uma associação de incorporadoras imobiliárias e suspendeu a divulgação da lista. Mas a proibição foi desfeita em 2016, com decisão da ministra Carmen Lúcia.

Os principal empregador de trabalho escravo no Brasil é o agronegócio, nos setores de pecuária e café, além do setor madeireiro.

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Imagem: Trabalhadora rural canavieira. Paraíba, 198-. Fundo Voz da Unidade, [SIN], foto 2424. Acervo Arquivo Edgard Leuenroth

 

70% do desmatamento na Am. Latina é culpa do agronegócio. E este é apenas um dos problemas.

No Brasil, o agronegócio ocupa muito espaço e não alimenta nem 30% da população. Ao contrário, forma milícias para matar gente, lidera casos de trabalho escravo e intimida opositores. 

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Imagine uma organização feita por uma minoria de indivíduos que é dona da maioria das terras. Cujos membros estão entre os campeões de trabalho escravo e desmatamento e chegam a formar milícias de terroristas armados. Uma organização que tem representantes na política que se empenham em intimidar opositores. Este é o agronegócio no Brasil.

Um relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), ligada à ONU, demonstrou veementemente que o agronegócio está destruindo recursos da América Latina. Segundo a agência, 70% do desmatamento ocorrido na região entre 2000 e 2010 se deu por culpa dos grande produtores rurais (1).

Segundo outro relatório internacional, as comoditties que mais causaram destruição de florestas foram, nesta ordem (2): gado, soja, óleo de palma e madeira.

Se não bastasse a devastação causada por esse setor econômico, pesa sobre ele o fato de que concentra terras, deixando gente sem trabalho e sem possibilidade de autossustento. Segundo pesquisa da OXFAM, 1% dos produtores rurais possuem 45% de toda a terra no Brasil (2).

Toda essa concentração de terras e devastação podem até servir para aumentar o Produto Interno Bruto, mas o brasileiro, ao que parece, não come PIB. Vem da agricultura familiar 70% de toda a alimentação dos brasileiros (3), enquanto a destruição do agronegócio serve para exportação e para fazer ração de vaca.

Se isso tudo não bastasse, o agronegócio brasileiro é responsável por formar grupos armados que assassinam pequenos produtores, índios, quilombolas e ativistas socioambientais (5). Provavelmente graças a isso, o Brasil foi campeão de assassinatos de ativistas da terra e do meio ambiente em 2015, com 50 casos no ano (6)

Vários setores do agronegócio estão entre os principais acusados de trabalho escravo (7) e seu braço político, a bancada ruralista, participou ativamente da ruptura democrática de 2016 e chega a ameaçar a liberdade de expressão. Um de seus membros, o senador Ronaldo Caiado, propôs instaurar uma comissão para intimidar uma escola de samba do Rio de Janeiro, cujo tema era favorável aos índios do Xingu (8).

O que pode ser feito quanto a isso?

  • Exigir, através de manifestações e organizações políticas, que os culpados por crimes (escravidão, assassinato, extração ilegal de madeira) sejam penalizados.
  • Reduzir ao máximo ou recusar o consumo de carne e produtos oriundos da pecuária.
  • Preferir produtos orgânicos, certificados, da agricultura familiar. Tentar comprar direto do produtor.
  • Defender, nos meios a que tiver acesso, os grupos que sofrem com o rolo compressor do agronegócio.
  • Não apoiar candidaturas políticas que tenham ligação com a bancada ruralista ou que tenham objetivos desenvolvimentistas.
  • Outras formas de protesto? Use a criatividade.

 

(1) http://www.fao.org/documents/card/en/c/6547e46e-3e6f-4c47-8dcb-8c5c19a18e00/

(2) http://www.forest-trends.org/documents/files/doc_5248.pdf

(3) http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2016-11/menos-de-1-das-propriedades-agricolas-detem-quase-metade-da-area-rural

(4) http://www.brasil.gov.br/economia-e-emprego/2015/07/agricultura-familiar-produz-70-dos-alimentos-consumidos-por-brasileiro

(5) https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/reuters/2017/01/12/fazendeiros-brasileiros-formam-milicias-contra-ativistas-da-terra-diz-human-rights-watch.htm

(6) http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2016-06/brasil-lidera-ranking-de-mortes-de-ambientalistas-em-2015-diz-ong

(7) http://outraspalavras.net/deolhonosruralistas/2017/01/18/pecuaria-cafe-e-madeira-lideraram-casos-de-trabalho-escravo-em-2016/

(8) http://brasil.elpais.com/brasil/2017/01/13/politica/1484343086_484320.html?id_externo_rsoc=FB_BR_CM