Corporações gastam milhões para você achar que está se libertando do padrão de beleza

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É fundamental para a saúde psíquica a aceitação do próprio corpo, afinal somos variados e as diferenças físicas são exuberantes, evidenciando o pertencimento da humanidade à multiplicidade da natureza. Mas é nesse processo de aceitação da natureza do corpo que agem as propagandas das corporações de alimentos, criando uma relação que associa o açúcar e as gorduras à felicidade, e fornecendo um arcabouço para o entendimento do acúmulo de gorduras corporais como algo natural, e não sociocultural.

De fato, existe mesmo um padrão impositivo de magreza, sobretudo para mulheres. Mas o que é realmente cruel nisto é que a associação deste padrão estético ao padrão alimentar hegemônico é uma máquina de infelicidade. O indivíduo é convencido a acreditar que só pode ser feliz se alcançar uma interseção impossível entre um físico enxuto e uma alimentação gordurosa e calórica.

As grandes corporações gastam milhões todo ano para você aceitar a lógica de que engordar é  um fenômeno natural, espontâneo, e para reforçar a ideia de que você é oprimido por um padrão antinatural, que estaria em desacordo com sua biologia supostamente sedenta por carne, gordura e açúcar. Vide as propagandas da Coca-Cola e do McDonald’s, cujas mensagens publicitárias costumam dizer algo como “permita-se ser feliz e espontâneo engordando aqui”.

Existem numerosos casos em que o ganho de peso e de gordura ocorrem por razões puramente físicas, como em distúrbios, doenças e reações medicamentosas. Na maioria das vezes, porém, ele acontece quando se consome mais calorias do que se gasta, normalmente quando a alimentação é baseada em alimentos processados e de origem animal. Isto é, quando a comida vem dos pecuaristas e das grandes empresas de alimentação. Se visualizamos esse dado sociocultural (a alimentação da população) como se fosse um dado natural, ficamos impedidos de pensar e reformular a sociedade porque retomamos o precedente biologizante – o mesmo que leva à “constatação” de que a função natural da mulher é ser mãe, por exemplo. Essa sobreposição de aspectos biológicos da humanidade aos aspectos sociais está no cerne de teorias lombrosianas e eugenistas, que foram o braço pseudocientífico do racismo e do nazismo.

No afã de se libertarem da imposição do padrão estético de magreza, as pessoas correm o risco de seguirem as orientações das corporações de alimentos e ver esta liberdade justamente nos piores produtos alimentícios disponíveis, tanto do ponto de vista da saúde quanto do socioambiental e mesmo do sabor, em muitos casos. Daí corre-se o risco de uma aceitação sem problematização do ganho de gorduras e de peso pela população.

No coletivo, este fenômeno é uma ótima forma de ocupar vagas em hospitais, debilitando os sistema de saúde público e privado; de “financiar” as operações devastadoras dos oligopólios de alimento; e de fortalecer a ideia de que a sociedade tem por base a biologia, como fizeram os defensores do racismo.

Parece uma arapuca. E o brasileiro pode estar caindo nela direitinho. Em 2016, a revista científica Lancet publicou um estudo que afirmou que um quinto da população brasileira é obesa. Não se trata daquela gordurinha aqui ou acolá, que também pode ser danosa à saúde, mas de obesidade, que é realmente perigosa. Ainda segundo a revista, o Brasil figura entre os países mais obesos do mundo: entre os homens, só fica atrás de China e EUA; entre as mulheres o Brasil fica em 5º, atrás também de Rússia e Índia.

Enquanto a população engorda, deixa-se de pensar que tanto o paladar quanto o aumento do número de obesos são fenômenos mais sociais, não biológicos, e que a escolha da alimentação é cultural. Não existe apenas uma forma de comer nem de ser feliz e não é preciso aceitar a relação entre ingestão de gorduras e açúcar com a felicidade. Do mesmo modo, a ideia de um corpo magro como objetivo é danosa, visto que um corpo sadio deveria ser apenas uma mera e provável consequência de escolhas racionais, autoconscientes e livres.

A alimentação é, também, um ato político. Na escolha e no preparo dos alimentos, somos todos ativistas e não há neutralidade possível. Ao comprar a ideia que associa felicidade à alimentos calóricos e gordurosos, você escolheu um lado. Um lado perverso. E talvez você nem saiba.

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Imagem: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=48724045

A ideologia mortal

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O que aconteceria se você descobrisse que sua dieta colabora para criar enchentes, desertificação, desmatamento, milhões de refugiados ambientais e maus tratos a animais? Provavelmente nada. Isso porque o nosso modelo econômico criou e exporta uma ideologia chamada Carnismo. É  isso que propõe a psicóloga Melanie Joy.

Segundo ela revela em seu famoso livro “Why we love dogs, eat pigs and wear cows”, o carnismo é um conjunto de crenças coletivas que engloba vários mecanismos de defesa que impedem que a produção e consumo de carne feita nos padrões atuais seja questionada como dilema ético. Deste modo, o carnismo se comporta como ideologia dominante, discriminando e reduzindo aqueles que percebem sua atuação e fazendo com que debater a ética da produção e consumo de carne seja visto automaticamente como um assunto piegas, “coisa de vegetariano”.

No livro , Joy  encaixa esses mecanismos ideológicos de alienação em quatro categorias, que ela chama de “Os 4 Ns”. Com eles, a sociedade justifica o dilema ético do consumo de carne (nos padrões atuais) porque ele seria 1- Natural, 2- Normal, 3- Necessário  e 4- Bom (do inglês, nice).

1- O carnismo diz que comer carne é natural, pois somos onívoros. Mas ser onívoro não significa ter uma dieta baseada em carne. Os alimentos de origem animal comidos por nossos antepassados eram insetos e animais de caça e pesca apenas na quantidade necessária para a própria sobrevivência, enquanto nosso sistema econômico atual precisa gerar excedente, o que modifica completamente a escala. Fora isso, a justificativa do “natural” perde a força quando reivindicada por alguém que não vive mais em uma caverna.

2- Outro mecanismo de alienação do carnismo diz que a maioria das pessoas come carne, então este seria um hábito normal, dispensando o raciocínio acerca dos problemas causados. Nada de novo para quem já normalizou a escravidão,  o holocausto etc.

3- Apesar das provas e evidências citando a carne como causa de doenças, o carnismo tende a ver a falta de proteína especificamente animal como algo potencialmente perigoso à saúde. Logo, comer carne seria necessário, embora falte embasamento científico para isso e sobrem pesquisas relacionando o consumo de carne ao aumento de doenças coronárias, câncer, obesidade e diabetes.

4- O último argumento para não pensar sobre os efeitos da dieta com excesso de carne é que carne seria bom (nice), como se o paladar não fosse constituído culturalmente. E como se não fosse passível de ser reformulado diante de uma necessidade.

Sobretudo, além dos 4 Ns, o carnismo busca anular cognitivamente os outros seres que servirão de comida, reduzindo no imaginário social a capacidade deles de sentirem sofrimento. Assim, cria-se uma falta de identificação entre a carne e o bicho que deu origem a ela. Esta ligação, quando é feita, ocorre de forma idealizada, com mascotes e logotipos apresentando bichos vivos e felizes nos rótulos, que parecem se sobrepor aos bichos mortos do conteúdo.

Como qualquer ideologia dominante, parece que não pode haver vida fora do carnismo, obrigando os indivíduos a reproduzirem essas práticas. Os dados e estatísticas, no entanto, parecem mostrar justamente o contrário: é a vida que não poderá ser mantida nestes padrões. Atualmente, a pecuária responde por 51% das emissões de gases do efeito estufa, 91% do desmatamento da Amazônia, mais da metade do gasto de água em países desenvolvidos, 3 milhões de quilos de excrementos por minuto, pela tortura e morte de milhões de animais  e por 45% da ocupação de toda a área terrestre.

Levando em conta a proposta de Joy, é possível dizer que há uma ideologia mortal sustentando toda essa tragédia. Para a autora, portanto, melhorar o mundo passa por revelar os mecanismos de funcionamento da ideologia que sustenta esta dieta e, principalmente, reduzi-la ao máximo.

Racismo, sexismo… Especismo?

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O movimento abolicionista combatia a escravidão humana em uma época em que o uso de mão de obra escrava era tido como natural e tratar seres de outra origem étnica como propriedade era o padrão. No século XVIII e XIX, em boa parte do mundo, a cultura e a economia estavam sustentadas no escravismo e os que questionavam essa base eram tidos como utópicos.

No livro “Libertação Animal”, Peter Singer cunhou o termo especismo, significando a discriminação contra seres de outra espécie. Ele sustentou que todos os seres que são capazes de sofrer devem ter seu bem-estar levado em conta e que o modelo atual da indústria de alimentação de origem animal gera sofrimento desnecessário.

Segundo esta ótica, a qualificação atual dos animais como propriedade e a forma como a indústria alimentícia obtém seus lucros através de tortura e abate desnecessários de animais poderiam ser tidos como eticamente errados.

O autor ponderou que, do modo que a comida é produzida hoje, o vegetarianismo seria a única dieta moralmente aceitável e condenou também experiências com animais. Para Singer e outros defensores dos animais, essas atividades se justificam apenas em casos em que sejam pesados com justiça os benefícios e o sofrimento causado.

Essa proposta formou uma sólida base para os movimentos de direitos dos animais.