Como propor uma economia ecológica em meio ao radicalismo do livre mercado?

Na verdade, uma economia ecológica chega a ser um pleonasmo. O radical grego eco vem de oikos, que significa casa. Uma disciplina estuda a casa e outra a organiza. O problema é justamente que os organizadores da casa querem ampliar as dependências e fazer puxadinhos infinitamente, mas com matéria-prima finita.

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No Brasil, tem sido comum ter que defender um ponto de vista que nem sequer é o seu. A radicalização opressiva dos defensores de políticas de livre-mercado e austeridade faz com que tenhamos que defender qualquer outra opção pouco menos nefasta do ponto de vista socioambiental, de modo que qualquer ideia nova não consegue adentrar o debate macroeconômico.

A política neoliberal ganhou uma aderência enorme no público brasileiro graças a difusores muito bem pagos na mídia e na internet, que não mencionam, propositalmente, tudo o que sabem. Há toda outra parte de sua disciplina, mesmo sem vinculação alguma com a política de esquerda, que é absolutamente anti-neoliberal.

Após 40 anos de infortúnios causados pela aplicação quase religiosa dessa doutrina, mesmo economistas conservadores já não são rígidos sobre essas ideias. Além destes, há  os que defendem um capitalismo associado a políticas distributivas e regulações, como os famosos Joseph Stiglitz e Amartya Sen. Há todos os keynesianos, que focam no estímulo à economia e defendem a linha desenvolvimentista do Plano Marshall e do New Deal de meados do século XX. Isso tudo apenas no paradigma da política de centro-direita, sem nem sequer mencionar ainda qualquer alternativa de economia ecológica.

A consequência de não informar o público brasileiro de todas as possibilidades do saber econômico é que os debates ficam restritos a uma guerra fria sem nexo, em que os dois lados são capitalistas e adeptos da ideologia do crescimento ilimitado. Inserir o tópico ecologista em uma discussão econômica no Brasil fica quase impossível.

A questão da desigualdade e o meio ambiente

Em todos os cenários traçados por pesquisadores de várias disciplinas, chegou-se  à conclusão quase unânime de que a natureza produz o suficiente para atender as demandas de nossa superpopulação humana. Então como podem os recursos naturais estarem acabando e em ritmo acelerado?

Certamente, diminuir a população humana não seria má ideia. As vantagens poderiam ser várias. Mas os problemas de escassez de recursos que devemos enfrentar ainda neste século são muito mais oriundos da má distribuição de riquezas. Já virou lugar-comum a célebre constatação de que, se todos os humanos consumissem como um estadunidense médio, precisaríamos de vários planetas Terra. O número varia um pouco dependendo do instituto de pesquisa citado, mas a conclusão é inequívoca: não vai dar pé.

O mundo econômico vêm discutindo como reduzir o problema da desigualdade, sobretudo após a crise de 2008. É claro que cabeças diferentes vão propor soluções diferentes, mas parte dos defensores do livre mercado, especialmente aqui no Brasil, recusam-se sequer a reconhecer que o problema exista. Alguns neoliberais chegam a apontar problemas de metodologia nas pesquisas da OXFAM, que expuseram um incremento vigoroso da desigualdade. Porém, um economista da estirpe de Joseph Stiglitz usa os dados da OXFAM sem mal estar algum, o que dá bastante lastro à metodologia utilizada.

Segundo alguns neoliberais ortodoxos, não teria havido aumento da renda dos mais ricos, e sim aumento da renda declarada deles. Pesquisas como as de Emmanuel Saez, no entanto, parecem derrubar este mito, pois levam em conta essa crítica e chegam à mesma conclusão da OXFAM e de medalhões como Piketty.

Propondo uma economia ecológica

Se o pensamento da economia brasileira está tão religiosamente voltado ao livre mercado, chegando a ponto de negar a desigualdade, como propor uma economia ecológica? Tudo que não for radicalmente neoliberal é visto como uma sucursal do inferno por boa parte da opinião pública, que replica os difusores exasperados do neoliberalismo.

Nesse cenário, uma ideia positivamente diferente, que pode ser entendida como radical, não possui muito espaço para florescer. Diante disso, é preciso saber optar pela opção menos pior em cenários limitados. Para enfrentar o dogmatismo neoliberal, é pertinente posicionar-se ao lado daqueles que, pelo menos, entendem que a sociedade precisa ter o poder de interferir na economia (no mínimo, através do Estado, embora não seja esta a proposta do texto, como se lerá adiante).

Mas apenas reconhecer a opção menos pior não é suficiente. Para realmente minar a desigualdade e os problemas ambientais que dela decorrem, é preciso entendê-la também como política, não só econômica. Ou seja, é propor que a regulação do mercado se dê, cada vez mais, pela participação direta dos indivíduos nas decisões políticas. Democratizar a participação das pessoas através de mecanismos de democracia direta e participativa é um recurso inevitável se quisermos corrigir a desigualdade. Democracia econômica de verdade é incluir todos nos processos decisórios a respeito das riquezas, dos recursos disponíveis e de sua manutenção.

Além disso, também não se pode deixar de fazer a crítica ambientalista mais ampla e apontar como a economia global se tornou um sistema autofágico. É preciso “sair do armário” e criticar o crescimento econômico ilimitado como a estupidez efêmera que ele é. O mito de que o aumento do PIB gera riqueza para todos os indivíduos já foi demolido diversas vezes em pesquisas econômicas. Além do mais, não pode ser esta a solução para tudo, pois não dá para crescer infinitamente com recursos naturais finitos. É preciso pautar a discussão econômica de forma diferente, visando o bem-estar social e a manutenção deste bem-estar  ao longo dos tempos através da preservação ambiental.

Na verdade, uma economia ecológica chega a ser um pleonasmo. O radical grego eco vem de oikos, que significa casa. Uma disciplina estuda a casa e outra a organiza. O problema é justamente que alguns dos organizadores da casa querem ampliar as dependências infinitamente – construindo quartos suntuosos para uns e fazendo puxadinhos insalubres para outros -, mas com matéria-prima finita.

Se começar as bases de uma economia justa e democrática é necessário, mitigar a ideologia do crescimento ilimitado é urgente. Qualquer opção que seja menos que isso poderá nos roubar o futuro.

Figura: quadrinho de Andy Singer. No original, development.

Economia socioambiental: o decrescimento econômico entra no parlamento britânico

O economista ecológico Federico DeMaria participou de debate no parlamento britânico sobre decrescimento econômico.

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The end of growth? Este foi o nome do debate ocorrido no parlamento britânico do qual participou o economista Federico DeMaria, segundo ele contou à página virtual Ecologist, neste dia 16 de janeiro de 2017.

Segundo ele, o consenso foi que o crescimento econômico, ao invés de ser visto como uma panaceia para resolver todos os problemas sociais, seria um problema em si. E a causa de vários outros problemas.

Os debatedores levaram diversos argumentos para demonstrar que o crescimento econômico seria insustentável ambientalmente, indesejável do ponto de vista social e que pode ter chegado ao fim de seu ciclo.

No artigo resultante da empreitada, eles concluíram que  o decrescimento econômico enfrenta a hegemonia do crescimento e convida para uma redistribuição da produção em consumo em menor escala nos países industrializados como meio de atingir sustentabilidade ambiental, justiça social e bem-estar.

 

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