Os ativistas que usam o veganismo como arma do movimento negro

Ainda existe uma percepção errada de contradição entre campanhas sociais amplas e ativismo de caráter pontual baseado em atitudes, sobretudo de respeito ao ambiente ou animais. Exemplo máximo é um texto do Zizek, em que ele tenta demonstrar como trocar o carro pela bicicleta seria bobeira do superego e ser um autoritário arrogante como ele é que salvaria o mundo. Ele detém o monopólio da solução. Já conhecemos como termina essa história.

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Por isso é natural que dentre os grupos que discordam dessa visão simplória, abstrata e nada funcional estejam minorias cujas causas foram sufocadas por supostas “Causas Maiores”. Gente que compreende a impossibilidade de questões complementares serem consideradas mutuamente excludentes. Dois exemplos são as ecofeministas indianas do Movimento Chipko e os ativistas negros veganos do Black Vegans Rock.

Segundo eles, a opressão e exploração de animais não-humanos está associada à opressão de mulheres, negros, mestiços e povos indígenas. A supremacia de uns, eles dizem, tende a oprimir qualquer outra categoria que esteja “abaixo”. Afirmam que a divisão humano x animal é a pedra fundamental da supremacia branca, pois o outro, humano ou não, será sempre tratado como “animal” por quem detêm os meio de oprimir. Por isso, o ativismo vegano deles seria uma arma do ativismo negro que eles se propõem a fazer.

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Consumo consciente e práticas pessoais mudam o mundo?

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Observo com espanto alguns sujeitos ligados às causas sociais adotarem uma postura, a meu ver, cínica com relação à mudança de atitudes pessoais que possam ser complementares a algum projeto de melhoria social ou de ampliação de liberdades. Deixar de repensar práticas individuais porque “não adiantam nada” parece uma forma de não se comprometer com planos de transformação social, pois a própria transformação demandaria essas reformulações.

Claro que o voluntarismo individual só adquire mais sentido quando combinado a propostas de soluções amplas.  Como escreveu o ativista britânico Nicolas Walter, as táticas na “guerra pela liberdade e igualdade” incluem “desde escaramuças guerrilheiras da nossa vida pessoal até as batalhas das grandes campanhas sociais”, até porque minorias progressistas “dificilmente têm condições de escolher o campo de batalha, mas devem lutar onde as coisas estão acontecendo”. Não tenho como discordar.

É com esse espírito que se deve pensar as práticas individuais. Não porque se tenha sua eficácia mensurada e comprovada (assim como em qualquer ativismo), mas porque são atitudes negligenciadas na democracia representativa, na qual o voto ganha destaque em detrimento de outras práticas. Assim como, por exemplo, o “consumo consciente” dentro de um capitalismo cruel pode funcionar muito pouco, o ato de votar dentro desse mesmo sistema certamente funciona menos ainda. Pelo menos o “consumo consciente” minora problemas decorrentes do sistema, enquanto não se poderia dizer necessariamente o mesmo sobre o ato de votar.

Ainda assim, alguns grupos ligados às causas sociais recusam certas atitudes e práticas individuais, afirmando normalmente que elas culpabilizam o indivíduo ao invés de culpar empresas, corporações e governos. Só que as atitudes individuais não excluem ou anulam quaisquer campanhas sociais amplas e ainda potencialmente reduzem o sofrimento de seres e populações mais afetados por atividades negativas de empresas, corporações e governos. Ou seja, não há contraindicações para estas práticas. A recusa de aceitar isto parece apenas preguiça.

Quando se exclui as atitudes individuais do repertório de ação, entra-se no jogo dos grupos conservadores, que também procuram poupar o indivíduo, pois acreditam que este deve consumir livremente, sem maiores questionamentos, ao invés de buscar a liberdade fora do consumo.

Enquanto isso, apenas na África, nos últimos 20 anos, 10 milhões de pessoas pobres tiveram de fugir de suas casas devido à desertificação causada pelo aquecimento planetário. E já sabemos que uma sociedade que sobreviva ao aquecimento e se mantenha nos limites do saudável terá de se adaptar não somente a mudanças de produção, mas também a mudanças de consumo. Por que não começar?

“É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática”. Paulo Freire

Este é o caso da carne. Olhando mais de perto seu consumo e produção, vemos que as emissões de metano, causadas pela pecuária, somadas às de carbono, causadas pelo desmatamento que a pecuária demanda, fazem desta atividade a provável maior causa do problema do aquecimento global, podendo chegar a ultrapassar os combustíveis fósseis. Diante disso, não parece inteligente culpar o sistema econômico abstratamente sem verificar se a atividade pecuarista nesta escala de consumo seria, de fato, viável em outro sistema econômico. Bem, não seria.

A “guerra pela liberdade e igualdade” inclui “desde escaramuças guerrilheiras da nossa vida pessoal até as batalhas das grandes campanhas sociais”, até porque minorias progressistas “dificilmente têm condições de escolher o campo de batalha, mas devem lutar onde as coisas estão acontecendo”. Nicolas Walter

E só aumenta o número de pessoas a fugir de desastres causados pelo aquecimento global. E só aumenta a forma cruel como são tratados os mamíferos para que a carne seja mais e mais comercializada.

Por fim, deve-se criticar as limitações dos hábitos pessoais e do consumo consciente, até para angariar apoio a transformações mais profundas. Mas não dá para usar esta crítica como uma desculpa cínica para deixar de repensar e, se possível, reformular os próprios hábitos. Há muito trabalho a fazer para operar mudanças nas atividades humanas. E, para isso, é importante notar que práticas individuais e campanhas sociais não são mutuamente excludentes. Elas podem ser complementares e frequentemente funcionaram melhor ao longo da história quando acionadas juntas.

Como afirmou Paulo Freire, “é fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática”. Nem sempre é possível, nem sempre modifica o mundo, mas é bem melhor que cinismo.

Como o carnismo simboliza o machismo e a dominação da natureza (e pode destruir o futuro humano)

Há uma associação entre o carnismo e certa visão de masculinidade, que relaciona o consumo de carne a algo como ser “glutão” e a comer “como um viking”. Não há nada de muito viril em comprar carne já partida e resfriada no mercado. Menos ainda de um bicho que não foi caçado valentemente, mas enjaulado, maltratado e morto por outrem. Do mesmo modo, não parece masculino, nem admirável em nenhum sentido, comprar carne  barateada à custa de crueldades e graves problemas socioambientais que prometem impossibilitar uma vida decente aos nossos descendentes (graças ao aquecimento global do qual a pecuária é a segunda maior ou a maior contribuinte, dependendo do estudo).

Mas não é disso que vou escrever. Vou escrever sobre que tipo de visão de mundo patrocina o carnismo e obriga alguém a ter de se reafirmar tão veementemente como consumidor de carne – e como essa visão de mundo nos leva ao abismo.

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Voltando no tempo, nas sociedades de caçadores-coletores, a tarefa de conseguir carne para complementar a dieta humana era dos homens porque caçar e pescar demandavam mais força física que a coleta de vegetais. A partir do advento da agricultura e da criação de animais, no Oriente Médio há mais ou menos dez mil anos atrás, era tarefa dos homens cuidar desses dois afazeres, enquanto a mulher passou a ser relegada à funções domésticas. Na verdade, começa aí um processo de generalização da posição da mulher como subalterna. Mas não só da mulher.

Como sabemos, os primeiros excedentes da produção geraram as primeiras concentrações de riqueza, que foram usadas para criar um sistema repressivo para proteger esses detentores da riqueza (o embrião do Estado). Esse recém-criado sistema de detenção e manutenção de privilégios iniciou uma fase de dominação em larga escala dos proprietários sobre os sem posses; dos ricos sobre os pobres; dos detentores de aparelho repressor sobre os fracos; do homem sobre a mulher; e, claro, do homem sobre a natureza, com o início da alteração radical da paisagem natural (que culmina na ideia do antropoceno, o humano como força capaz de marcar uma era geológica).

É crucial perceber, no entanto, que não foi o Homem que dominou a natureza, mas o homem. Pelo menos em seus princípios, não foi a humanidade que se colocou fora da teia da vida e como subjugadora desta, mas sim a masculinidade. Assim apontam Adorno, Horkheimer e Murray Bookchin.

Diante disso, nada mais normal que o consumo de carne seja associado à masculinidade. Não se trata apenas de memória histórica subconsciente sobre a época em que os homens caçavam e as mulheres colhiam. Trata-se de um troféu de vitória, de um estandarte da dominação dos homens prevalentes sobre as mulheres, sobre a natureza e sobre os outros homens. Por isso, não é à toa que mencionei os vikings no início do texto. Eles são um povo adorado pelos supremacistas brancos extremistas dos EUA e são brancos, viris e comem carne como glutões.

Claro que a indústria da carne não é mantida apenas pelos homens ricos, os “de cima”. Os de baixo querem emergir e ser um carnista é um excelente símbolo inicial de poder, por razões que são tanto históricas quanto subconscientes. E as preferências do paladar, como se sabe, são construídas culturalmente.

A situação se agravou com o incremento das sociedades de mercado da era neoliberal. Numa jogada de mestre dos donos do mundo, foi concedida aos “de baixo” a oportunidade de se sentirem como os “de cima” (e se identificarem com eles ao invés de se organizarem entre si). Isso explica não somente uma recente admiração excessiva de alguns indivíduos das classes trabalhadoras por gadgets tecnológicos e grifes caras, mas também a própria reivindicação brasileira do churrasquinho de final de semana como parte da identidade popular.

Ou seja, a carne é barateada às custas de exploração dos “de baixo”, de animais e da natureza para fazer com que os “de baixo” pobres possam se sentir como os ricos na hora do almoço, aumentando os lucros dos produtores e a sensação de paz social.

No mais, a generalização e o protagonismo do consumo de carne ao estilo ocidental está devastando o planeta com requintes de crueldade. Quando o sul global entrar de vez nesse hábito, teremos o maior de todos os problemas já vivenciados. Espera-se para os próximos anos, por exemplo, que dezenas de milhares de pessoas tenham de fugir de suas casas apenas nas planícies de Bangladesh, graças à elevação do nível do mar, cujas causas incluem o carnismo.

É hora de sair da zona de conforto e debater o carnismo. E fazer isso é um passo fundamental para mudar o sistema econômico e produtivo. Em uma ou duas gerações, nenhuma bandeira contestatória fará sentido se esse debate não for feito desde agora. Não temos tanto tempo.

Mas ainda dá tempo.

Contrariando Trump, três estados decidem manter compromisso de Paris e cortar emissões

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Três estados e 92 cidades dos Estados Unidos estão empenhados em defender o Acordo de Paris sobre as alterações climáticas, dentro das suas fronteiras. Para tanto, eles criaram a Aliança Climática dos Estados Unidos.
Esse tipo de atitude só pode existir quando o poder está descentralizado. Basta imaginar o que ocorreria se fosse Trump o único a decidir sobre as emissões americanas…
Porém, conforme apontam muitos estudiosos sensato, graças à concentração de riqueza causada por políticas neoliberais, os mais ricos vêm investindo em lobbies políticos cada vez mais fortes. A tendência de concentração de poder é altíssima num cenário de grande injustiça social.
Ou seja: meio ambiente, igualdade social e democratização caminham juntos.
Os três estados-membros da Aliança são Califórnia, Nova Iorque, e Washington. Juntos, somam 20,5% da população dos EUA e 24,7% do PIB dos EUA. Apesar disso, apenas 11,1% das emissões de dióxido de carbono estadunidenses vêm destes estados.
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