A ecofeminista indiana enfrenta a máquina mais mortal jamais criada

A principal voz do socioambientalismo internacional vem de uma mulher. E, para ela, as mulheres são a chave da mudança.

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Meados dos anos 1970. Mandal, Índia. Um grupo de homens munidos de serras e tratores se aproxima das árvores próximas ao vilarejo. Com autorização do governo, eles pretendem cortar centenas de árvores para levar a uma fábrica longínqua de raquetes de tênis. Uma menina vê a cena e corre para o povoado para avisar que a floresta que garante o sustento de todos está para ir abaixo. Vinte e sete mulheres atendem o chamado e enfrentam os madeireiros desarmadas. Discutem, argumentam, mas os homens começam a gritar e a abusar delas, ameaçando-as com armas, enquanto vão em direção aos troncos. Em um ato de bravura extrema, as mulheres começam a abraçar as árvores e permanecem lá por quatro horas até que os madeireiros desistissem. No dia seguinte, quando eles retornaram para cumprir o serviço, se depararam com mais gente ainda abraçando as árvores. As notícias tinham se se espalhado pelos vilarejos dos arredores e a população resistiu por quatro dias até expulsar os invasores.

Essa batalha foi apenas um capítulo de uma guerra contra o desenvolvimentismo conhecida como Movimento Chipko. Este foi o batismo político de Vandana Shiva, escritora com mais de 20 livros publicadas e figura central do movimento altermundista. Elas não fazia parte daquele pequeno grupo inicial de mulheres e nem veio da vida camponesa, mas juntou-se à causa e a expandiu, no ativismo e nas ideias. Física com doutorado em filosofia, é membro do comitê científico da Fundación Ideas. Ganhou prêmios da Livelihood Award ( nobel alternativo da paz) e  da Organização Internacional para uma Sociedade Participativa.

Vandana Shiva escreve e fala sobre agricultura, alimentação, biodiversidade, bioética e feminismo. Colaborou em organizações de ecologia política e participativa na Ásia, África, América Latinta e Europa.

Grande parte de sua vida foi dedicada a defender a biodiversidade e o conhecimento dos povos tradicionais do planeta. Ficou famosa sua luta contra as patentes de sementes, quando uma megaempresa privatiza plantas, obrigando os agricultores à dependência completa e colocando em risco a segurança alimentar mundial.

Em 1982, a cientista fundou na Índia o Research Foundation for Science, Technology and Ecology, que ela define como um movimento que faz pesquisa à serviço dos movimentos populares e rurais.

Ecofeminismo

Vandana Shiva fundou a organização ecofeminista Navdanya, que, desde 1984, promove a conservação da biodiversidade, a reforma agrária, a agricultura orgânica e os direitos dos povos tradicionais. O Navdanya faz parte do movimento Terra Madre Slow Food e está espalhado ao longo de 16 estados da Índia. Ajudou a formar mais de 50 bancos de sementes comunitários, treinou meio milhão de agricultores em agricultura sustentável, revivendo técnicas tradicionais, e ainda estabeleceu uma imensa rede de comércio justo de compra direta do produtor.

De acordo com Vandana Shiva, em seu artigo Empowering Women, uma abordagem mais produtiva e ecológica da agricultura deve passar por engajar as mulheres e combater a lógica patriarcal de exclusão de gênero. Para ela, um sistema cujo foco é a mulher poderia modificar o mundo positivamente e que o feminismo tem grande responsabilidade em confrontar a destruição ambiental.

Segundo a indiana, o roubo da biodiversidade pelos colonizadores europeus foi uma ataque ao trabalho de séculos que as mulheres de povos tradicionais fizeram de preservar e manter as sementes.

Monoculturas da mente

Para Vandana Shiva, as monoculturas agropecuárias que destroem os solos e acabam com a água são um desdobramento das “monoculturas da mente”. O desenvolvimentismo se alastra através de diferentes ideologias políticas e culturas e é uma máquina de morte a qual se deve combater com diversidade, de culturas humanas e agrícolas.

A autora ainda enfrentou a Monsanto e iniciou um movimento feminista internacional chamado “Mulheres Diversas pela Diversidade” que enfrentou os regulamentos inescrupulosos que a Organização Mundial de Comércio fazia em detrimento da vida, das mulheres e dos países pobres.

“Os povos tropicais também se tornam um lixo histórico descartável. Em lugar do pluralismo cultural e biológico, a fábrica produz monoculturas sem sustentabilidade na natureza e na sociedade. Não há lugar para o pequeno (…) A diversidade tem de ser erradicada como uma erva daninha e as monoculturas uniformes – de plantas e pessoas – têm de ser administradas de fora porque não são mais autorreguladas e autogeridas (…)

Não há sobrevivência possível para a floresta ou seu povo quando eles se transformam em insumo para a indústria. A sobrevivência das florestas tropicais dependa da sobrevivência de sociedades humanas cujo modelo são os princípios da floresta”

Vandana Shiva, em Monoculturas da Mente

Evidente que toda essa movimentação não passou incólume, já que a máquina mais mortal jamais criada – o desenvolvimentismo – age como um rolo compressor e costuma acabar com seus oponentes, financeiramente ou mesmo à bala (como é comum no Brasil). Em 2004, vazou um documento oficial do governo indiano, destinado ao primeiro ministro, acusando Shiva e o Navdanya de estarem contra os interesses nacionais e recomendando vigilância.

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