Contra os fanáticos do crescimento: democratização e decrescimento econômico contra o aquecimento global

Precisamos falar sobre Decrescimento Econômico. Nossas vidas estão nas mãos de um punhado de lunáticos, que se recusam a aceitar a realidade objetiva e seguem defendendo a utopia do crescimento econômico infinito num planeta finito. É uma matemática do absurdo que está criando muito sofrimento, mas nem por isso vemos qualquer recuo mínimo na ideologia do crescimento. Todo o establishment o prescreve e o persegue.

É possível que seja a primeira vez que um texto que questione a ideia do crescimento ilimitado tenha sido publicado em um jornal de grande circulação. Neste artigo do The Guardian afirma-se que o Acordo de Paris prevê um aumento máximo de 2ºC na temperatura em relação a níveis pré-industriais. Mas o fato é que os procedimentos traçados não cumpririam essas metas. Longe disso. E mesmo esses procedimentos tímidos do Acordo já foram abandonados pelo governo dos Estados Unidos (e também por todos que se recusam a rever o carnismo e as mazelas da pecuária, que têm grande parcela de culpa no aquecimento global). Não leia a matéria do jornal britânico inteira se não quiser estragar sua refeição sabendo as consequências.

Fica a pergunta: por que uns fanáticos, que negam o óbvio, estão decidindo os rumos do mundo? O que aconteceria se os processos decisórios fossem tomados de forma mais direta pelo maior números de indivíduos possível? Será que os 90% mais pobres decidiriam melhorar de vida às custas de um crescimento suicida ou de uma divisão melhor dos recursos e riquezas?

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A elite econômica direciona os rumos da política, com injeção de recursos na manutenção de uma elite política que a favorece, formando um corpo coeso de conservadorismo e ignorância mesquinha. Num fenômeno global, esses blocos econômicos-políticos cada têm tentado pôr em prática estratégias que tornam o Estado repressor cada vez mais forte e a regulação econômica para distribuir riquezas cada vez mais fraca, atrelando esse ideário à manutenção da ilusão de que é possível erradicar os problemas humanos buscando um crescimento econômico utópico.

O movimento oposto deve ser pela maior democratização dos processos decisórios, com incremento da democracia direta e participativa, o que naturalmente tende a romper a coesão dos grupos tenebrosos que nos levam ao abismo do aquecimento global. É um abismo, mas não há razão para pânico. Porque os desafios são imensos, mas a margem de manobra é ainda maior. Precisamos colocar em prática uma democratização radical dos processos decisórios que nos livre dos fanáticos do crescimento e nos possibilite colocar em discussão o decrescimento econômico e a melhor divisão de riquezas.

 

Leia mais sobre decrescimento econômico aqui.

Os ativistas que usam o veganismo como arma do movimento negro

Ainda existe uma percepção errada de contradição entre campanhas sociais amplas e ativismo de caráter pontual baseado em atitudes, sobretudo de respeito ao ambiente ou animais. Exemplo máximo é um texto do Zizek, em que ele tenta demonstrar como trocar o carro pela bicicleta seria bobeira do superego e ser um autoritário arrogante como ele é que salvaria o mundo. Ele detém o monopólio da solução. Já conhecemos como termina essa história.

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Por isso é natural que dentre os grupos que discordam dessa visão simplória, abstrata e nada funcional estejam minorias cujas causas foram sufocadas por supostas “Causas Maiores”. Gente que compreende a impossibilidade de questões complementares serem consideradas mutuamente excludentes. Dois exemplos são as ecofeministas indianas do Movimento Chipko e os ativistas negros veganos do Black Vegans Rock.

Segundo eles, a opressão e exploração de animais não-humanos está associada à opressão de mulheres, negros, mestiços e povos indígenas. A supremacia de uns, eles dizem, tende a oprimir qualquer outra categoria que esteja “abaixo”. Afirmam que a divisão humano x animal é a pedra fundamental da supremacia branca, pois o outro, humano ou não, será sempre tratado como “animal” por quem detêm os meio de oprimir. Por isso, o ativismo vegano deles seria uma arma do ativismo negro que eles se propõem a fazer.

Leia mais sobre o movimento aqui.

Consumo consciente e práticas pessoais mudam o mundo?

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Observo com espanto alguns sujeitos ligados às causas sociais adotarem uma postura, a meu ver, cínica com relação à mudança de atitudes pessoais que possam ser complementares a algum projeto de melhoria social ou de ampliação de liberdades. Deixar de repensar práticas individuais porque “não adiantam nada” parece uma forma de não se comprometer com planos de transformação social, pois a própria transformação demandaria essas reformulações.

Claro que o voluntarismo individual só adquire mais sentido quando combinado a propostas de soluções amplas.  Como escreveu o ativista britânico Nicolas Walter, as táticas na “guerra pela liberdade e igualdade” incluem “desde escaramuças guerrilheiras da nossa vida pessoal até as batalhas das grandes campanhas sociais”, até porque minorias progressistas “dificilmente têm condições de escolher o campo de batalha, mas devem lutar onde as coisas estão acontecendo”. Não tenho como discordar.

É com esse espírito que se deve pensar as práticas individuais. Não porque se tenha sua eficácia mensurada e comprovada (assim como em qualquer ativismo), mas porque são atitudes negligenciadas na democracia representativa, na qual o voto ganha destaque em detrimento de outras práticas. Assim como, por exemplo, o “consumo consciente” dentro de um capitalismo cruel pode funcionar muito pouco, o ato de votar dentro desse mesmo sistema certamente funciona menos ainda. Pelo menos o “consumo consciente” minora problemas decorrentes do sistema, enquanto não se poderia dizer necessariamente o mesmo sobre o ato de votar.

Ainda assim, alguns grupos ligados às causas sociais recusam certas atitudes e práticas individuais, afirmando normalmente que elas culpabilizam o indivíduo ao invés de culpar empresas, corporações e governos. Só que as atitudes individuais não excluem ou anulam quaisquer campanhas sociais amplas e ainda potencialmente reduzem o sofrimento de seres e populações mais afetados por atividades negativas de empresas, corporações e governos. Ou seja, não há contraindicações para estas práticas. A recusa de aceitar isto parece apenas preguiça.

Quando se exclui as atitudes individuais do repertório de ação, entra-se no jogo dos grupos conservadores, que também procuram poupar o indivíduo, pois acreditam que este deve consumir livremente, sem maiores questionamentos, ao invés de buscar a liberdade fora do consumo.

Enquanto isso, apenas na África, nos últimos 20 anos, 10 milhões de pessoas pobres tiveram de fugir de suas casas devido à desertificação causada pelo aquecimento planetário. E já sabemos que uma sociedade que sobreviva ao aquecimento e se mantenha nos limites do saudável terá de se adaptar não somente a mudanças de produção, mas também a mudanças de consumo. Por que não começar?

“É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática”. Paulo Freire

Este é o caso da carne. Olhando mais de perto seu consumo e produção, vemos que as emissões de metano, causadas pela pecuária, somadas às de carbono, causadas pelo desmatamento que a pecuária demanda, fazem desta atividade a provável maior causa do problema do aquecimento global, podendo chegar a ultrapassar os combustíveis fósseis. Diante disso, não parece inteligente culpar o sistema econômico abstratamente sem verificar se a atividade pecuarista nesta escala de consumo seria, de fato, viável em outro sistema econômico. Bem, não seria.

A “guerra pela liberdade e igualdade” inclui “desde escaramuças guerrilheiras da nossa vida pessoal até as batalhas das grandes campanhas sociais”, até porque minorias progressistas “dificilmente têm condições de escolher o campo de batalha, mas devem lutar onde as coisas estão acontecendo”. Nicolas Walter

E só aumenta o número de pessoas a fugir de desastres causados pelo aquecimento global. E só aumenta a forma cruel como são tratados os mamíferos para que a carne seja mais e mais comercializada.

Por fim, deve-se criticar as limitações dos hábitos pessoais e do consumo consciente, até para angariar apoio a transformações mais profundas. Mas não dá para usar esta crítica como uma desculpa cínica para deixar de repensar e, se possível, reformular os próprios hábitos. Há muito trabalho a fazer para operar mudanças nas atividades humanas. E, para isso, é importante notar que práticas individuais e campanhas sociais não são mutuamente excludentes. Elas podem ser complementares e frequentemente funcionaram melhor ao longo da história quando acionadas juntas.

Como afirmou Paulo Freire, “é fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática”. Nem sempre é possível, nem sempre modifica o mundo, mas é bem melhor que cinismo.

Como o carnismo simboliza o machismo e a dominação da natureza (e pode destruir o futuro humano)

Há uma associação entre o carnismo e certa visão de masculinidade, que relaciona o consumo de carne a algo como ser “glutão” e a comer “como um viking”. Não há nada de muito viril em comprar carne já partida e resfriada no mercado. Menos ainda de um bicho que não foi caçado valentemente, mas enjaulado, maltratado e morto por outrem. Do mesmo modo, não parece masculino, nem admirável em nenhum sentido, comprar carne  barateada à custa de crueldades e graves problemas socioambientais que prometem impossibilitar uma vida decente aos nossos descendentes (graças ao aquecimento global do qual a pecuária é a segunda maior ou a maior contribuinte, dependendo do estudo).

Mas não é disso que vou escrever. Vou escrever sobre que tipo de visão de mundo patrocina o carnismo e obriga alguém a ter de se reafirmar tão veementemente como consumidor de carne – e como essa visão de mundo nos leva ao abismo.

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Voltando no tempo, nas sociedades de caçadores-coletores, a tarefa de conseguir carne para complementar a dieta humana era dos homens porque caçar e pescar demandavam mais força física que a coleta de vegetais. A partir do advento da agricultura e da criação de animais, no Oriente Médio há mais ou menos dez mil anos atrás, era tarefa dos homens cuidar desses dois afazeres, enquanto a mulher passou a ser relegada à funções domésticas. Na verdade, começa aí um processo de generalização da posição da mulher como subalterna. Mas não só da mulher.

Como sabemos, os primeiros excedentes da produção geraram as primeiras concentrações de riqueza, que foram usadas para criar um sistema repressivo para proteger esses detentores da riqueza (o embrião do Estado). Esse recém-criado sistema de detenção e manutenção de privilégios iniciou uma fase de dominação em larga escala dos proprietários sobre os sem posses; dos ricos sobre os pobres; dos detentores de aparelho repressor sobre os fracos; do homem sobre a mulher; e, claro, do homem sobre a natureza, com o início da alteração radical da paisagem natural (que culmina na ideia do antropoceno, o humano como força capaz de marcar uma era geológica).

É crucial perceber, no entanto, que não foi o Homem que dominou a natureza, mas o homem. Pelo menos em seus princípios, não foi a humanidade que se colocou fora da teia da vida e como subjugadora desta, mas sim a masculinidade. Assim apontam Adorno, Horkheimer e Murray Bookchin.

Diante disso, nada mais normal que o consumo de carne seja associado à masculinidade. Não se trata apenas de memória histórica subconsciente sobre a época em que os homens caçavam e as mulheres colhiam. Trata-se de um troféu de vitória, de um estandarte da dominação dos homens prevalentes sobre as mulheres, sobre a natureza e sobre os outros homens. Por isso, não é à toa que mencionei os vikings no início do texto. Eles são um povo adorado pelos supremacistas brancos extremistas dos EUA e são brancos, viris e comem carne como glutões.

Claro que a indústria da carne não é mantida apenas pelos homens ricos, os “de cima”. Os de baixo querem emergir e ser um carnista é um excelente símbolo inicial de poder, por razões que são tanto históricas quanto subconscientes. E as preferências do paladar, como se sabe, são construídas culturalmente.

A situação se agravou com o incremento das sociedades de mercado da era neoliberal. Numa jogada de mestre dos donos do mundo, foi concedida aos “de baixo” a oportunidade de se sentirem como os “de cima” (e se identificarem com eles ao invés de se organizarem entre si). Isso explica não somente uma recente admiração excessiva de alguns indivíduos das classes trabalhadoras por gadgets tecnológicos e grifes caras, mas também a própria reivindicação brasileira do churrasquinho de final de semana como parte da identidade popular.

Ou seja, a carne é barateada às custas de exploração dos “de baixo”, de animais e da natureza para fazer com que os “de baixo” pobres possam se sentir como os ricos na hora do almoço, aumentando os lucros dos produtores e a sensação de paz social.

No mais, a generalização e o protagonismo do consumo de carne ao estilo ocidental está devastando o planeta com requintes de crueldade. Quando o sul global entrar de vez nesse hábito, teremos o maior de todos os problemas já vivenciados. Espera-se para os próximos anos, por exemplo, que dezenas de milhares de pessoas tenham de fugir de suas casas apenas nas planícies de Bangladesh, graças à elevação do nível do mar, cujas causas incluem o carnismo.

É hora de sair da zona de conforto e debater o carnismo. E fazer isso é um passo fundamental para mudar o sistema econômico e produtivo. Em uma ou duas gerações, nenhuma bandeira contestatória fará sentido se esse debate não for feito desde agora. Não temos tanto tempo.

Mas ainda dá tempo.

A cooperação como um fator de evolução: um livro fundamental do biorregionalismo

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Quando alguns pretenderam enxergar na natureza a justificativa para aceitar os problemas e injustiças sociais, o russo Piotr Kropotkin reagiu. Todo o conhecimento empírico de suas viagens e pesquisas o levavam a uma inequívoca conclusão: na natureza, a cooperação era tão importante quanto a competição para a evolução. E na sociedade não haveria de ser diferente.

O livro “Mutualismo – um fator de evolução” foi escrito como resposta ao darwinismo social, sistema de ideias que deturpava a teoria da evolução das espécies. Os darwinistas sociais, e em especial o autor Thomas H. Huxley, consideravam a biologia de Darwin apenas parcialmente, ignorando partes fundamentais, e defendiam que a sociedade deveria derivar daquela ordem.  O darwinismo social justificava a desigualdade e a miséria do capitalismo como sendo natural, vinda do mundo biológico.

Kropotkin descreve suas próprias experiências em expedições científicas como geógrafo para mostrar que a competição por meios de sobrevivência não é o principal fator para a evolução das espécies. Ele examina outra interação ecológica, a cooperação, como essencial. O autor defende, sobretudo, que a competição intraespécies seria ainda mais rara, demorada, realizada ao longo de um tempo grande. Ou seja, não seria exatamente uma competição entre indivíduos, mas entre genes mais adaptáveis.

Sua análise não para na biologia. Além das comunidades animais, o autor fala das sociedades tribais, pré-feudais, das vilas medievais e das comunas. Sem negar a virtude da competição, ele demonstra que a ajuda mútua é a força motriz da sobrevivência e da evolução.

Na descrição da cooperação nas comunidades humanas, o autor acaba lançando a ideia do biorregionalismo, já posta em prática nas comunas apresentadas por ele. Um dos famosos propositores desta ideias, o poeta (ganhador do Pullitzer), linguista e antropólogo Gary Snyder, afirma que o livro de Kropotkin foi uma de suas inspirações:

“Eu estudei a escola kropotkiniana do anarquismo e seu grande livro, “Ajuda Mútua”. E o mutualismo meio que se transformou no corpo do projeto biorregional na minha cabeça. Como anarquismo é muito mal compreendido, eu geralmente uso o termo biorregionalismo atualmente”.

Entrevista de Gary Snyder para a Medium, em 2015

Na juventude, Snyder havia proposto a ideia de anarquismo budista, que se parece bastante com a ideia central do movimento do anarquismo verde. Kropotkin ainda seria grande influência nos trabalhos de um dos precursores do ambientalismo, Murray Bookchin (curiosamente, Snyder e Bookchin não se davam muito bem, apesar de versarem sobre temas semelhantes).

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O biorregionalismo defende que uma comunidade, independente de sua densidade, se estabeleça nos limites de uma região biológica (lençol freático, bioma, zona climática), de modo a depender dela e mantê-la. O modelo propõe uma economia e uma política descentralizadas, voltadas para atender as necessidades humanas sem deixar de manter a região biológica em condições saudáveis.

Para baixar o livro de Kropotkin, clique aqui: Ajuda-Mútua-um-fator-de-evolução-Piotr-Kropotkin

Ensaio de Murray Bookchin – Ecologia Social ou Ecologia Profunda: um desafio para o movimento ecologista

Murray Bookchin foi um autor prolífico e fundamental para a ecologia política verdadeiramente democrática. Neste ensaio, de 1987, ele tenta dar trilhos ao movimento ecologista, criticando as corruptelas e vertentes que ele considerou regressivas e até reacionárias.

Apesar de algumas críticas certeiras, seu temperamento aguerrido e crítico acaba por não fazer pontes com outras visões ecologistas e socialistas libertárias. Esse defeito não se sobrepõe de forma alguma ao pensamento original e vivaz do autor, cujas propostas são pouco conhecidas do público brasileiro.

O texto está no original em inglês. Disponível para download abaixo.

Ou, para saber mais sobre Bookchin, clique aqui.

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Como a questão ambiental expõe as semelhanças da esquerda autoritária com a direita

Volta e meia circula na internet um texto de um famoso filósofo propondo que mudanças comportamentais para reduzir o impacto da ação humana são inúteis frutos de um sentimento de culpa do superego. Concordamos com o pressuposto de que repensar e reformular as bases do sistema é o mais importante. Mas o curioso é que, ao propor a  sua versão de primazia de uma mudança social abstrata sobre a ação prática de pequena escala, o autor defende a mesma atitude que a direita da economia liberal. “Não mexa com o indivíduo! Não mexa com o nosso consumo!”.

Outro ponto importante é que o autor do texto é o Slavoj Zizek. Trata-se de um filósofo divertido e genial, mas com opiniões políticas autoritárias e egocêntricas. Exemplos: disse preferir Trump a Hillary; defendeu mobilização militar contra entrada de imigrantes na Europa; optou por ser arqui-inimigo e fazer troça de um dos principais pensadores do século XX, Noam Chomsky.

O que a autoria do texto tem a ver com isso? Tudo. Porque é possível que o autor, sendo quem é, esteja propondo que o indivíduo não altere nada em sua rotina justamente para que espere a ação redentora e definitiva de uma Vanguarda Revolucionária ao estilo Lenin (de quem Zizek é fã). Ou talvez proponha que nós deveríamos deixar um novo Grande Líder pensar isso em nosso lugar e só o que resta a fazer é colocar esse Grande Líder no poder.

Invertendo o jogo de Zizek, não seria a fé na espera da mudança política um fruto de um sentimento de culpa do superego? Uma forma de aplacar a consciência enquanto se dirige um trecho que poderia ser percorrido de transporte público ou bicicleta?

Parece haver um quadro claro de proposta de ações ambientais de acordo com a visão política. À direita, você não precisa se preocupar com seus hábitos porque vai dar tudo certo contanto que botemos uns pobres na cadeia e nada interfira na economia. À esquerda, em sua versão zizekiana e autoritária, você não precisa se preocupar igualmente com seus hábitos porque o que interessa é colocar o grupo certo de pessoas certas no poder e eles te guiam para o Mundo Novo.

Olhando esse quadro, a parte autoritária da esquerda se assemelha bastante à direita. Já vimos essa semelhança no século XX (e vimos também que a direita liberal só propõe soluções democráticas desde que ninguém mexa na economia). Não é à toa que na Polônia, perto da terra natal de Zizek, um ministro do governo de extrema direita escolheu como alvo o mesmo grupo criticado pelo filósofo, ao dizer que sua missão é acabar com “a Europa apodrecida de vegetarianos e ciclistas”, além das energias limpas.

Enquanto o texto de Zizek conclui com abstrações e indicando a necessidade de um futuro comunista abstrato, a conclusão aqui será interpelar as pessoas para que partam para a ação, seja na mudança política ou na mudança de hábitos. Aliás, não há nada apolítico no mundo, muito menos nos nossos hábitos. As boas mudanças podem vir da escala individual, da macropolítica e, principalmente, dos grupos políticos independentes de base. E quando há urgência em achar soluções, não há razão para cortar opções.

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Belo Sun: setores público e privado se unem para destruir a Amazônia

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Afastada apenas 11km da usina-tragédia de Belo Monte, uma imensa área do Xingu deve ser destruída, colocando em risco a floresta, a biodiversidade e os povos ribeirinhos e indígenas. Apesar de a Defensoria Pública do Pará ter pedido a suspensão do projeto, o Governo do Pará concedeu licença de extração de ouro para o empreendimento Belo Sun neste dia 2 de fevereiro.

Para conter 96 milhões de metros cúbicos de rejeitos tóxicos, Belo Sun pretende construir uma imensa barragem, cujo laudo de segurança foi assinado pelo mesmo engenheiro responsável por atestar a estabilidade da barragem do Fundão, em Mariana. Aquela acabou sendo a maior tragédia socioambiental da história do país.

A ganância que dá força ao projeto, apesar dos danos que pode provocar, se explica: a empresa pretende extrair 150 toneladas de ouro em 17 anos no município de Senador José Porfírio. Ao todo, o projeto Belo Sun tem investimento de R$ 1,5 bilhão para destruir uma área equivalente a 1.700 campos de futebol.

A Belo Sun é canadense e controlada pelo grupo Forbes & Manhattan, um banco mercantil de capital privado que explora mineração pelo mundo. A empresa anunciou a concessão da licença antes mesmo do governo paraense formalizar a medida. Uma tabela, também publicada pela empresa, já previa a concessão da licença nesta época, o que deixa em dúvida a regularidade da avaliação da licença.

Como se pode depreender, não é apenas o setor privado que se empenha na destruição da Amazônia e em prol dos lucros. O ouro de Belo Sun deve render R$ 235 milhões por ano em impostos, o que poderia explicar o empenho do Departamento Nacional de Produção Mineral em viabilizar o projeto.

Portanto, mais uma vez vê-se uma espécie de aliança entre os setores público e privado em prol do desenvolvimentismo predatório, gerador de desigualdade social e de perda de biodiversidade. Sem intensa mobilização da sociedade civil, o Xingu seguirá rumo à destruição.

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Ministério não revela lista contra trabalho escravo no Brasil porque geraria desemprego

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O Ministério do Trabalho não divulgou o relatório conhecido como “lista suja”, que identifica “empregadores” flagrados com mão de obra análoga à escravidão.

A divulgação foi ordenada pela Justiça do Trabalho no dia 19 de dezembro, em caráter liminar, para que o governo publicasse a lista em até 30 dias. Até agora, no entanto, o “ministro” Ronaldo Nogueira desobedeceu a ordem da Justiça.

O Ministério do Trabalho informou que ‘‘eventuais inclusões [de pessoas e empresas na lista] indevidas não apenas redundariam em injustiças com graves consequências a cidadãos e empresas, gerando desemprego”. 

Ou seja, um ministério do atual “governo” repete um discurso de outrora e afirma que abolir a escravidão é ruim porque gera desemprego.

A “lista suja” é um mecanismo elogiado pela ONU como um dos mais importantes instrumentos de combate ao trabalho escravo no Brasil e citada como exemplo para o mundo. Ela foi criada em 2003 com intuito de dar visibilidade e transparência ao problema do trabalho análogo à escravidão.

Em 2014, o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, atendeu a um pedido de liminar de uma associação de incorporadoras imobiliárias e suspendeu a divulgação da lista. Mas a proibição foi desfeita em 2016, com decisão da ministra Carmen Lúcia.

Os principal empregador de trabalho escravo no Brasil é o agronegócio, nos setores de pecuária e café, além do setor madeireiro.

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Imagem: Trabalhadora rural canavieira. Paraíba, 198-. Fundo Voz da Unidade, [SIN], foto 2424. Acervo Arquivo Edgard Leuenroth

 

O glitter e a imbecilidade geral da nação

(Texto com opinião do autor, não necessariamente da página)

No país do carnaval, o texto a respeito dos malefícios do glitter recebeu enorme atenção e foi recebido com grande polêmica. Em três dias teve 40mil leitores, choveram compartilhamentos, comentários, e-mails, convite para entrevista (1) e uma reportagem em jornal (2).

Muitos leitores se preocuparam em entender mais, propuseram soluções, fizeram boas críticas e expuseram suas dúvidas. Em grupos virtuais sobre carnaval de rua, ao que parece, houve uma reação politizada e positiva de solidariedade mútua e grande empenho em mitigar os danos do glitter ao ambiente. Outra parte dos leitores prosseguiu suas vidas com indiferença. Curtirão o carnaval, com glitter ou não, sem se demorarem em pensamentos. Até aí, nada de novo no front. O que causou espanto foi a reação de uma terceira parcela de leitores.

Muitas postagens brotaram na internet criticando o texto do PEDRA por ser demasiado piegas, ingênuo, ou por estar deixando de criticar os “verdadeiros poluidores”. Estas críticas não seriam um problema se os autores tivessem se dado ao trabalho de ler os textos da página, que são baseados na Ecologia Social. Esses críticos tampouco leram a linha editorial do PEDRA, que diz que defende a “reversão dos problemas ambientais através de ações tanto políticas quanto pessoais e o reconhecimento da responsabilidade de todos na solução”.  Por conta dessa falta de leitura foi incluído um adendo, no texto do glitter, de que a página “não apoia a espera por uma solução que vá cair do céu. E por isso apoia tanto soluções macropolíticas quanto soluções a partir da ação individual e, principalmente, a partir de organização política de base”.

Fazer críticas politizadas sem se dar ao trabalho de ler é ruim, mas os problemas não pararam por aí. O conteúdo de certas críticas era realmente surpreendente. Houve um texto  “de esquerda” que defendia o glitter como libelo contra a repressão ao divertimento e à liberdade. Trata-se, precisamente, do mesmo argumento usado por americanos republicanos e brancos para defenderem a compra de seus carros Hummer (3). Criticados pela esquerda ambientalista porque seus veículos gastam absurdamente mais combustível, eles defendem exatamente o direito ao consumo individual não receber interferência de argumentos alheios ou coletivos.

Outro crítico defendeu que o uso do glitter, por ser sazonal, não fazia mal o suficiente ao ambiente. Mas pediu aos seus leitores que deixassem de usar esfoliantes porque estes também possuem microplásticos, mas são usados todo o ano. Este é um argumento preocupante porque, no caso, quem define a quantidade mínima que deve começar a preocupar todos nós e motivar uma ação de redução do consumo é ele, o crítico. Trata-se de uma métrica arbitrária, que denota uma proposta autoritária de lidar com o problema do lixo. A postagem que pregava que os esfoliantes são maus e o glitter é bom já tinha mais de 50 compartilhamentos em um dia.

O âmago de algumas destas críticas pareceu ser apenas uma reação à recepção positiva de um texto informal por grande parte do público, pois isto tira de alguns o poder de ter a Verdadeira proposta de ação política. Parece tratar-se de uma preferência estética por certo tipo de comportamento aparentemente anti-hegemônico. Se recusar o glitter subitamente tornou-se hegemônico, coisa comum, qual a graça de combater seus efeitos?

Interessante é que no texto do glitter veiculado pelo PEDRA, sugerimos que os leitores se divirtam “sem destruir”, pois o “espírito anárquico do carnaval não combina com prepotência”. Relendo agora, depois da repercussão, isso diz ainda mais coisa do que pretendia inicialmente.

O consumo consciente é um ato político, que pode pressionar por mudanças através do próprio sistema de mercado. Por isso, ele não é revolucionário e nem se propõe a ser, mas tampouco está impedido de ser combinado com outras ações de cunho mais evidentemente transformador. Há quem opte somente por militar em outras atividades e ignorar a importância da vida cotidiana e das práticas pessoais. Mas, como foi mencionado no texto do PEDRA, fazer um pouco nas práticas simples rotina é uma forma de fazer um mínimo.

O texto do glitter veio a público precisamente para dar mais um conhecimento, mais uma ferramenta. O leitor pode achar que esta recusa ao microplastico do glitter é uma forma boa de colaborar ou não. Ou pode ir além e deduzir daí que nosso sistema político-econômico fabrica itens tão poluentes e desnecessários como o glitter sem nenhuma mediação das pessoas. O leitor pode notar que as pessoas não têm poder algum sobre o que é produzido nem sobre as prioridades da produção. Quem sabe o que fará o leitor munido dessas informações? Contra a imbecilidade geral da nação, mais informação. E menos glitter, talvez.


(1) O convite da rádio CBN foi recusado porque esta não é uma página de reciclagem ou de gestão ambiental, mas de ecologia política. Não havia razão para dar fama à página enquanto especialistas no tema deixam de ser consultados.

(2)http://oglobo.globo.com/sociedade/sustentabilidade/ambientalistas-pedem-boicote-purpurina-glittler-no-carnaval-20820696?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilhar

(3) O Hummer é a versão civil do Humvee, um carro militar cuja estrutura imensa se movimenta com o gasto de muita gasolina.