Como o carnismo simboliza o machismo e a dominação da natureza (e pode destruir o futuro humano)

Há uma associação entre o carnismo e certa visão de masculinidade, que relaciona o consumo de carne a algo como ser “glutão” e a comer “como um viking”. Não há nada de muito viril em comprar carne já partida e resfriada no mercado. Menos ainda de um bicho que não foi caçado valentemente, mas enjaulado, maltratado e morto por outrem. Do mesmo modo, não parece masculino, nem admirável em nenhum sentido, comprar carne  barateada à custa de crueldades e graves problemas socioambientais que prometem impossibilitar uma vida decente aos nossos descendentes (graças ao aquecimento global do qual a pecuária é a segunda maior ou a maior contribuinte, dependendo do estudo).

Mas não é disso que vou escrever. Vou escrever sobre que tipo de visão de mundo patrocina o carnismo e obriga alguém a ter de se reafirmar tão veementemente como consumidor de carne – e como essa visão de mundo nos leva ao abismo.

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Voltando no tempo, nas sociedades de caçadores-coletores, a tarefa de conseguir carne para complementar a dieta humana era dos homens porque caçar e pescar demandavam mais força física que a coleta de vegetais. A partir do advento da agricultura e da criação de animais, no Oriente Médio há mais ou menos dez mil anos atrás, era tarefa dos homens cuidar desses dois afazeres, enquanto a mulher passou a ser relegada à funções domésticas. Na verdade, começa aí um processo de generalização da posição da mulher como subalterna. Mas não só da mulher.

Como sabemos, os primeiros excedentes da produção geraram as primeiras concentrações de riqueza, que foram usadas para criar um sistema repressivo para proteger esses detentores da riqueza (o embrião do Estado). Esse recém-criado sistema de detenção e manutenção de privilégios iniciou uma fase de dominação em larga escala dos proprietários sobre os sem posses; dos ricos sobre os pobres; dos detentores de aparelho repressor sobre os fracos; do homem sobre a mulher; e, claro, do homem sobre a natureza, com o início da alteração radical da paisagem natural (que culmina na ideia do antropoceno, o humano como força capaz de marcar uma era geológica).

É crucial perceber, no entanto, que não foi o Homem que dominou a natureza, mas o homem. Pelo menos em seus princípios, não foi a humanidade que se colocou fora da teia da vida e como subjugadora desta, mas sim a masculinidade. Assim apontam Adorno, Horkheimer e Murray Bookchin.

Diante disso, nada mais normal que o consumo de carne seja associado à masculinidade. Não se trata apenas de memória histórica subconsciente sobre a época em que os homens caçavam e as mulheres colhiam. Trata-se de um troféu de vitória, de um estandarte da dominação dos homens prevalentes sobre as mulheres, sobre a natureza e sobre os outros homens. Por isso, não é à toa que mencionei os vikings no início do texto. Eles são um povo adorado pelos supremacistas brancos extremistas dos EUA e são brancos, viris e comem carne como glutões.

Claro que a indústria da carne não é mantida apenas pelos homens ricos, os “de cima”. Os de baixo querem emergir e ser um carnista é um excelente símbolo inicial de poder, por razões que são tanto históricas quanto subconscientes. E as preferências do paladar, como se sabe, são construídas culturalmente.

A situação se agravou com o incremento das sociedades de mercado da era neoliberal. Numa jogada de mestre dos donos do mundo, foi concedida aos “de baixo” a oportunidade de se sentirem como os “de cima” (e se identificarem com eles ao invés de se organizarem entre si). Isso explica não somente uma recente admiração excessiva de alguns indivíduos das classes trabalhadoras por gadgets tecnológicos e grifes caras, mas também a própria reivindicação brasileira do churrasquinho de final de semana como parte da identidade popular.

Ou seja, a carne é barateada às custas de exploração dos “de baixo”, de animais e da natureza para fazer com que os “de baixo” pobres possam se sentir como os ricos na hora do almoço, aumentando os lucros dos produtores e a sensação de paz social.

No mais, a generalização e o protagonismo do consumo de carne ao estilo ocidental está devastando o planeta com requintes de crueldade. Quando o sul global entrar de vez nesse hábito, teremos o maior de todos os problemas já vivenciados. Espera-se para os próximos anos, por exemplo, que dezenas de milhares de pessoas tenham de fugir de suas casas apenas nas planícies de Bangladesh, graças à elevação do nível do mar, cujas causas incluem o carnismo.

É hora de sair da zona de conforto e debater o carnismo. E fazer isso é um passo fundamental para mudar o sistema econômico e produtivo. Em uma ou duas gerações, nenhuma bandeira contestatória fará sentido se esse debate não for feito desde agora. Não temos tanto tempo.

Mas ainda dá tempo.

A cooperação como um fator de evolução: um livro fundamental do biorregionalismo

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Quando alguns pretenderam enxergar na natureza a justificativa para aceitar os problemas e injustiças sociais, o russo Piotr Kropotkin reagiu. Todo o conhecimento empírico de suas viagens e pesquisas o levavam a uma inequívoca conclusão: na natureza, a cooperação era tão importante quanto a competição para a evolução. E na sociedade não haveria de ser diferente.

O livro “Mutualismo – um fator de evolução” foi escrito como resposta ao darwinismo social, sistema de ideias que deturpava a teoria da evolução das espécies. Os darwinistas sociais, e em especial o autor Thomas H. Huxley, consideravam a biologia de Darwin apenas parcialmente, ignorando partes fundamentais, e defendiam que a sociedade deveria derivar daquela ordem.  O darwinismo social justificava a desigualdade e a miséria do capitalismo como sendo natural, vinda do mundo biológico.

Kropotkin descreve suas próprias experiências em expedições científicas como geógrafo para mostrar que a competição por meios de sobrevivência não é o principal fator para a evolução das espécies. Ele examina outra interação ecológica, a cooperação, como essencial. O autor defende, sobretudo, que a competição intraespécies seria ainda mais rara, demorada, realizada ao longo de um tempo grande. Ou seja, não seria exatamente uma competição entre indivíduos, mas entre genes mais adaptáveis.

Sua análise não para na biologia. Além das comunidades animais, o autor fala das sociedades tribais, pré-feudais, das vilas medievais e das comunas. Sem negar a virtude da competição, ele demonstra que a ajuda mútua é a força motriz da sobrevivência e da evolução.

Na descrição da cooperação nas comunidades humanas, o autor acaba lançando a ideia do biorregionalismo, já posta em prática nas comunas apresentadas por ele. Um dos famosos propositores desta ideias, o poeta (ganhador do Pullitzer), linguista e antropólogo Gary Snyder, afirma que o livro de Kropotkin foi uma de suas inspirações:

“Eu estudei a escola kropotkiniana do anarquismo e seu grande livro, “Ajuda Mútua”. E o mutualismo meio que se transformou no corpo do projeto biorregional na minha cabeça. Como anarquismo é muito mal compreendido, eu geralmente uso o termo biorregionalismo atualmente”.

Entrevista de Gary Snyder para a Medium, em 2015

Na juventude, Snyder havia proposto a ideia de anarquismo budista, que se parece bastante com a ideia central do movimento do anarquismo verde. Kropotkin ainda seria grande influência nos trabalhos de um dos precursores do ambientalismo, Murray Bookchin (curiosamente, Snyder e Bookchin não se davam muito bem, apesar de versarem sobre temas semelhantes).

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O biorregionalismo defende que uma comunidade, independente de sua densidade, se estabeleça nos limites de uma região biológica (lençol freático, bioma, zona climática), de modo a depender dela e mantê-la. O modelo propõe uma economia e uma política descentralizadas, voltadas para atender as necessidades humanas sem deixar de manter a região biológica em condições saudáveis.

Para baixar o livro de Kropotkin, clique aqui: Ajuda-Mútua-um-fator-de-evolução-Piotr-Kropotkin

Ensaio de Murray Bookchin – Ecologia Social ou Ecologia Profunda: um desafio para o movimento ecologista

Murray Bookchin foi um autor prolífico e fundamental para a ecologia política verdadeiramente democrática. Neste ensaio, de 1987, ele tenta dar trilhos ao movimento ecologista, criticando as corruptelas e vertentes que ele considerou regressivas e até reacionárias.

Apesar de algumas críticas certeiras, seu temperamento aguerrido e crítico acaba por não fazer pontes com outras visões ecologistas e socialistas libertárias. Esse defeito não se sobrepõe de forma alguma ao pensamento original e vivaz do autor, cujas propostas são pouco conhecidas do público brasileiro.

O texto está no original em inglês. Disponível para download abaixo.

Ou, para saber mais sobre Bookchin, clique aqui.

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Como a questão ambiental expõe as semelhanças da esquerda autoritária com a direita

Volta e meia circula na internet um texto de um famoso filósofo propondo que mudanças comportamentais para reduzir o impacto da ação humana são inúteis frutos de um sentimento de culpa do superego. Não está errado o pressuposto de que é preciso repensar e reformular as bases do sistema. Mas o curioso é que, ao propor a primazia de uma mudança social abstrata sobre a ação prática de pequena escala, o autor defende a mesma atitude que a direita da economia liberal. “Não mexa com o indivíduo! Não mexa com o nosso consumo!”.

Outro ponto importante é que o autor do texto é o Slavoj Zizek. Trata-se de um filósofo divertido e genial, mas com opiniões políticas autoritárias e egocêntricas. Exemplos: disse preferir Trump a Hillary; defendeu mobilização militar contra entrada de imigrantes na Europa; optou por ser arqui-inimigo e fazer troça de um dos principais pensadores do século XX, Noam Chomsky.

O que a autoria do texto tem a ver com isso? Tudo. Porque é possível que o autor, sendo quem é, esteja propondo que o indivíduo não altere nada em sua rotina justamente para que espere a ação redentora e definitiva de uma Vanguarda Revolucionária ao estilo Lenin (de quem Zizek é fã). Ou talvez proponha que nós deveríamos deixar um novo Grande Líder pensar isso em nosso lugar e só o que resta a fazer é colocar esse Grande Líder no poder.

Invertendo o jogo de Zizek, não seria a fé na espera da mudança política um fruto de um sentimento de culpa do superego? Uma forma de aplacar a consciência enquanto se dirige um trecho que poderia ser percorrido de transporte público ou bicicleta?

Parece haver um quadro claro de proposta de ações ambientais de acordo com a visão política. À direita, você não precisa se preocupar com seus hábitos porque vai dar tudo certo contanto que botemos uns pobres na cadeia e nada interfira na economia. À esquerda, em sua versão zizekiana e autoritária, você não precisa se preocupar igualmente com seus hábitos porque o que interessa é colocar o grupo certo de pessoas certas no poder e eles te guiam para o Mundo Novo.

Olhando esse quadro, a parte autoritária da esquerda se assemelha bastante à direita. Já vimos essa semelhança no século XX (e vimos também que a direita liberal só propõe soluções democráticas desde que ninguém mexa na economia). Não é à toa que na Polônia, perto da terra natal de Zizek, um ministro do governo de extrema direita escolheu como alvo o mesmo grupo criticado pelo filósofo, ao dizer que sua missão é acabar com “a Europa apodrecida de vegetarianos e ciclistas”, além das energias limpas.

Enquanto o texto de Zizek conclui com abstrações e indicando a necessidade de um futuro comunista abstrato, a conclusão aqui será interpelar as pessoas para que partam para a ação, seja na mudança política ou na mudança de hábitos. Aliás, não há nada apolítico no mundo, muito menos nos nossos hábitos. As boas mudanças podem vir da escala individual, da macropolítica e, principalmente, dos grupos políticos independentes de base. E quando há urgência em achar soluções, não há razão para cortar opções.

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Belo Sun: setores público e privado se unem para destruir a Amazônia

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Afastada apenas 11km da usina-tragédia de Belo Monte, uma imensa área do Xingu deve ser destruída, colocando em risco a floresta, a biodiversidade e os povos ribeirinhos e indígenas. Apesar de a Defensoria Pública do Pará ter pedido a suspensão do projeto, o Governo do Pará concedeu licença de extração de ouro para o empreendimento Belo Sun neste dia 2 de fevereiro.

Para conter 96 milhões de metros cúbicos de rejeitos tóxicos, Belo Sun pretende construir uma imensa barragem, cujo laudo de segurança foi assinado pelo mesmo engenheiro responsável por atestar a estabilidade da barragem do Fundão, em Mariana. Aquela acabou sendo a maior tragédia socioambiental da história do país.

A ganância que dá força ao projeto, apesar dos danos que pode provocar, se explica: a empresa pretende extrair 150 toneladas de ouro em 17 anos no município de Senador José Porfírio. Ao todo, o projeto Belo Sun tem investimento de R$ 1,5 bilhão para destruir uma área equivalente a 1.700 campos de futebol.

A Belo Sun é canadense e controlada pelo grupo Forbes & Manhattan, um banco mercantil de capital privado que explora mineração pelo mundo. A empresa anunciou a concessão da licença antes mesmo do governo paraense formalizar a medida. Uma tabela, também publicada pela empresa, já previa a concessão da licença nesta época, o que deixa em dúvida a regularidade da avaliação da licença.

Como se pode depreender, não é apenas o setor privado que se empenha na destruição da Amazônia e em prol dos lucros. O ouro de Belo Sun deve render R$ 235 milhões por ano em impostos, o que poderia explicar o empenho do Departamento Nacional de Produção Mineral em viabilizar o projeto.

Portanto, mais uma vez vê-se uma espécie de aliança entre os setores público e privado em prol do desenvolvimentismo predatório, gerador de desigualdade social e de perda de biodiversidade. Sem intensa mobilização da sociedade civil, o Xingu seguirá rumo à destruição.

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Ministério não revela lista contra trabalho escravo no Brasil porque geraria desemprego

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O Ministério do Trabalho não divulgou o relatório conhecido como “lista suja”, que identifica “empregadores” flagrados com mão de obra análoga à escravidão.

A divulgação foi ordenada pela Justiça do Trabalho no dia 19 de dezembro, em caráter liminar, para que o governo publicasse a lista em até 30 dias. Até agora, no entanto, o “ministro” Ronaldo Nogueira desobedeceu a ordem da Justiça.

O Ministério do Trabalho informou que ‘‘eventuais inclusões [de pessoas e empresas na lista] indevidas não apenas redundariam em injustiças com graves consequências a cidadãos e empresas, gerando desemprego”. 

Ou seja, um ministério do atual “governo” repete um discurso de outrora e afirma que abolir a escravidão é ruim porque gera desemprego.

A “lista suja” é um mecanismo elogiado pela ONU como um dos mais importantes instrumentos de combate ao trabalho escravo no Brasil e citada como exemplo para o mundo. Ela foi criada em 2003 com intuito de dar visibilidade e transparência ao problema do trabalho análogo à escravidão.

Em 2014, o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, atendeu a um pedido de liminar de uma associação de incorporadoras imobiliárias e suspendeu a divulgação da lista. Mas a proibição foi desfeita em 2016, com decisão da ministra Carmen Lúcia.

Os principal empregador de trabalho escravo no Brasil é o agronegócio, nos setores de pecuária e café, além do setor madeireiro.

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Imagem: Trabalhadora rural canavieira. Paraíba, 198-. Fundo Voz da Unidade, [SIN], foto 2424. Acervo Arquivo Edgard Leuenroth

 

O glitter e a imbecilidade geral da nação

(Texto com opinião do autor, não necessariamente da página)

No país do carnaval, o texto a respeito dos malefícios do glitter recebeu enorme atenção e foi recebido com grande polêmica. Em três dias teve 40mil leitores, choveram compartilhamentos, comentários, e-mails, convite para entrevista (1) e uma reportagem em jornal (2).

Muitos leitores se preocuparam em entender mais, propuseram soluções, fizeram boas críticas e expuseram suas dúvidas. Em grupos virtuais sobre carnaval de rua, ao que parece, houve uma reação politizada e positiva de solidariedade mútua e grande empenho em mitigar os danos do glitter ao ambiente. Outra parte dos leitores prosseguiu suas vidas com indiferença. Curtirão o carnaval, com glitter ou não, sem se demorarem em pensamentos. Até aí, nada de novo no front. O que causou espanto foi a reação de uma terceira parcela de leitores.

Muitas postagens brotaram na internet criticando o texto do PEDRA por ser demasiado piegas, ingênuo, ou por estar deixando de criticar os “verdadeiros poluidores”. Estas críticas não seriam um problema se os autores tivessem se dado ao trabalho de ler os textos da página, como no que falamos de escravidão indígena, ou da crítica ao “governo” Temer. Esses críticos tampouco leram a linha editorial do PEDRA, que diz que defende a “reversão dos problemas ambientais através de ações tanto políticas quanto pessoais e o reconhecimento da responsabilidade de todos na solução”.  Por conta dessa falta de leitura foi incluído um adendo, no texto do glitter, de que a página “não apoia a espera por uma solução que vá cair do céu. E por isso apoia tanto soluções macropolíticas quanto soluções a partir da ação individual e, principalmente, a partir de organização política de base”.

Fazer críticas politizadas sem se dar ao trabalho de ler é ruim, mas os problemas não pararam por aí. O conteúdo de certas críticas era realmente surpreendente. Houve um texto  “de esquerda” que defendia o glitter como libelo contra a repressão ao divertimento e à liberdade. Trata-se, precisamente, do mesmo argumento usado por americanos republicanos e brancos para defenderem a compra de seus carros Hummer (3). Criticados pela esquerda ambientalista porque seus veículos gastam absurdamente mais combustível, eles defendem exatamente o direito ao consumo individual não receber interferência de argumentos alheios ou coletivos.

Outro crítico defendeu que o uso do glitter, por ser sazonal, não fazia mal o suficiente ao ambiente. Mas pediu aos seus leitores que deixassem de usar esfoliantes porque estes também possuem microplásticos, mas são usados todo o ano. Este é um argumento preocupante porque, no caso, quem define a quantidade mínima que deve começar a preocupar todos nós e motivar uma ação de redução do consumo é ele, o crítico. Trata-se de uma métrica arbitrária, que denota uma proposta autoritária de lidar com o problema do lixo. A postagem que pregava que os esfoliantes são maus e o glitter é bom já tinha mais de 50 compartilhamentos em um dia.

O âmago de algumas destas críticas pareceu ser apenas uma reação à recepção positiva de um texto informal por grande parte do público, pois isto tira de alguns o poder de ter a Verdadeira proposta de ação política. Parece tratar-se de uma preferência estética por certo tipo de comportamento aparentemente anti-hegemônico. Se recusar o glitter subitamente tornou-se hegemônico, coisa comum, qual a graça de combater seus efeitos?

Interessante é que no texto do glitter veiculado pelo PEDRA, sugerimos que os leitores se divirtam “sem destruir”, pois o “espírito anárquico do carnaval não combina com prepotência”. Relendo agora, depois da repercussão, isso diz ainda mais coisa do que pretendia inicialmente.

O consumo consciente é um ato político, que pode pressionar por mudanças através do próprio sistema de mercado. Por isso, ele não é revolucionário e nem se propõe a ser, mas tampouco está impedido de ser combinado com outras ações de cunho mais evidentemente transformador. Há quem opte somente por militar em outras atividades e ignorar a importância da vida cotidiana e das práticas pessoais. Mas, como foi mencionado no texto do PEDRA, fazer um pouco nas práticas simples rotina é uma forma de fazer um mínimo.

O texto do glitter veio a público precisamente para dar mais um conhecimento, mais uma ferramenta. O leitor pode achar que esta recusa ao microplastico do glitter é uma forma boa de colaborar ou não. Ou pode ir além e deduzir daí que nosso sistema político-econômico fabrica itens tão poluentes e desnecessários como o glitter sem nenhuma mediação das pessoas. O leitor pode notar que as pessoas não têm poder algum sobre o que é produzido nem sobre as prioridades da produção. Quem sabe o que fará o leitor munido dessas informações? Contra a imbecilidade geral da nação, mais informação. E menos glitter, talvez.


(1) O convite da rádio CBN foi recusado porque esta não é uma página de reciclagem ou de gestão ambiental, mas de ecologia política. Não havia razão para dar fama à página enquanto especialistas no tema deixam de ser consultados.

(2)http://oglobo.globo.com/sociedade/sustentabilidade/ambientalistas-pedem-boicote-purpurina-glittler-no-carnaval-20820696?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilhar

(3) O Hummer é a versão civil do Humvee, um carro militar cuja estrutura imensa se movimenta com o gasto de muita gasolina.

Como propor uma economia ecológica em meio ao radicalismo do livre mercado?

Na verdade, uma economia ecológica chega a ser um pleonasmo. O radical grego eco vem de oikos, que significa casa. Uma disciplina estuda a casa e outra a organiza. O problema é justamente que os organizadores da casa querem ampliar as dependências e fazer puxadinhos infinitamente, mas com matéria-prima finita.

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No Brasil, tem sido comum ter que defender um ponto de vista que nem sequer é o seu. A radicalização opressiva dos defensores de políticas de livre-mercado e austeridade faz com que tenhamos que defender qualquer outra opção pouco menos nefasta do ponto de vista socioambiental, de modo que qualquer ideia nova não consegue adentrar o debate macroeconômico.

A política neoliberal ganhou uma aderência enorme no público brasileiro graças a difusores muito bem pagos na mídia e na internet, que não mencionam, propositalmente, tudo o que sabem. Há toda outra parte de sua disciplina, mesmo sem vinculação alguma com a política de esquerda, que é absolutamente anti-neoliberal.

Após 40 anos de infortúnios causados pela aplicação quase religiosa dessa doutrina, mesmo economistas conservadores já não são rígidos sobre essas ideias. Além destes, há  os que defendem um capitalismo associado a políticas distributivas e regulações, como os famosos Joseph Stiglitz e Amartya Sen. Há todos os keynesianos, que focam no estímulo à economia e defendem a linha desenvolvimentista do Plano Marshall e do New Deal de meados do século XX. Isso tudo apenas no paradigma da política de centro-direita, sem nem sequer mencionar ainda qualquer alternativa de economia ecológica.

A consequência de não informar o público brasileiro de todas as possibilidades do saber econômico é que os debates ficam restritos a uma guerra fria sem nexo, em que os dois lados são capitalistas e adeptos da ideologia do crescimento ilimitado. Inserir o tópico ecologista em uma discussão econômica no Brasil fica quase impossível.

A questão da desigualdade e o meio ambiente

Em todos os cenários traçados por pesquisadores de várias disciplinas, chegou-se  à conclusão quase unânime de que a natureza produz o suficiente para atender as demandas de nossa superpopulação humana. Então como podem os recursos naturais estarem acabando e em ritmo acelerado?

Certamente, diminuir a população humana não seria má ideia. As vantagens poderiam ser várias. Mas os problemas de escassez de recursos que devemos enfrentar ainda neste século são muito mais oriundos da má distribuição de riquezas. Já virou lugar-comum a célebre constatação de que, se todos os humanos consumissem como um estadunidense médio, precisaríamos de vários planetas Terra. O número varia um pouco dependendo do instituto de pesquisa citado, mas a conclusão é inequívoca: não vai dar pé.

O mundo econômico vêm discutindo como reduzir o problema da desigualdade, sobretudo após a crise de 2008. É claro que cabeças diferentes vão propor soluções diferentes, mas parte dos defensores do livre mercado, especialmente aqui no Brasil, recusam-se sequer a reconhecer que o problema exista. Alguns neoliberais chegam a apontar problemas de metodologia nas pesquisas da OXFAM, que expuseram um incremento vigoroso da desigualdade. Porém, um economista da estirpe de Joseph Stiglitz usa os dados da OXFAM sem mal estar algum, o que dá bastante lastro à metodologia utilizada.

Segundo alguns neoliberais ortodoxos, não teria havido aumento da renda dos mais ricos, e sim aumento da renda declarada deles. Pesquisas como as de Emmanuel Saez, no entanto, parecem derrubar este mito, pois levam em conta essa crítica e chegam à mesma conclusão da OXFAM e de medalhões como Piketty.

Propondo uma economia ecológica

Se o pensamento da economia brasileira está tão religiosamente voltado ao livre mercado, chegando a ponto de negar a desigualdade, como propor uma economia ecológica? Tudo que não for radicalmente neoliberal é visto como uma sucursal do inferno por boa parte da opinião pública, que replica os difusores exasperados do neoliberalismo.

Nesse cenário, uma ideia positivamente diferente, que pode ser entendida como radical, não possui muito espaço para florescer. Diante disso, é preciso saber optar pela opção menos pior em cenários limitados. Para enfrentar o dogmatismo neoliberal, é pertinente posicionar-se ao lado daqueles que, pelo menos, entendem que a sociedade precisa ter o poder de interferir na economia (no mínimo, através do Estado, embora não seja esta a proposta do texto, como se lerá adiante).

Mas apenas reconhecer a opção menos pior não é suficiente. Para realmente minar a desigualdade e os problemas ambientais que dela decorrem, é preciso entendê-la também como política, não só econômica. Ou seja, é propor que a regulação do mercado se dê, cada vez mais, pela participação direta dos indivíduos nas decisões políticas. Democratizar a participação das pessoas através de mecanismos de democracia direta e participativa é um recurso inevitável se quisermos corrigir a desigualdade. Democracia econômica de verdade é incluir todos nos processos decisórios a respeito das riquezas, dos recursos disponíveis e de sua manutenção.

Além disso, também não se pode deixar de fazer a crítica ambientalista mais ampla e apontar como a economia global se tornou um sistema autofágico. É preciso “sair do armário” e criticar o crescimento econômico ilimitado como a estupidez efêmera que ele é. O mito de que o aumento do PIB gera riqueza para todos os indivíduos já foi demolido diversas vezes em pesquisas econômicas. Além do mais, não pode ser esta a solução para tudo, pois não dá para crescer infinitamente com recursos naturais finitos. É preciso pautar a discussão econômica de forma diferente, visando o bem-estar social e a manutenção deste bem-estar  ao longo dos tempos através da preservação ambiental.

Na verdade, uma economia ecológica chega a ser um pleonasmo. O radical grego eco vem de oikos, que significa casa. Uma disciplina estuda a casa e outra a organiza. O problema é justamente que alguns dos organizadores da casa querem ampliar as dependências infinitamente – construindo quartos suntuosos para uns e fazendo puxadinhos insalubres para outros -, mas com matéria-prima finita.

Se começar as bases de uma economia justa e democrática é necessário, mitigar a ideologia do crescimento ilimitado é urgente. Qualquer opção que seja menos que isso poderá nos roubar o futuro.

Figura: quadrinho de Andy Singer. No original, development.

Economia socioambiental: o decrescimento econômico entra no parlamento britânico

O economista ecológico Federico DeMaria participou de debate no parlamento britânico sobre decrescimento econômico.

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The end of growth? Este foi o nome do debate ocorrido no parlamento britânico do qual participou o economista Federico DeMaria, segundo ele contou à página virtual Ecologist, neste dia 16 de janeiro de 2017.

Segundo ele, o consenso foi que o crescimento econômico, ao invés de ser visto como uma panaceia para resolver todos os problemas sociais, seria um problema em si. E a causa de vários outros problemas.

Os debatedores levaram diversos argumentos para demonstrar que o crescimento econômico seria insustentável ambientalmente, indesejável do ponto de vista social e que pode ter chegado ao fim de seu ciclo.

No artigo resultante da empreitada, eles concluíram que  o decrescimento econômico enfrenta a hegemonia do crescimento e convida para uma redistribuição da produção em consumo em menor escala nos países industrializados como meio de atingir sustentabilidade ambiental, justiça social e bem-estar.

 

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Editorial

Essa página se propõe a divulgar e debater assuntos do ambientalismo social, desde práticas pessoais até questões políticas, culturais e científicas.

Os textos e notícias veiculados aqui mantêm uma linha editorial antiautoritária e em defesa da justiça socioambiental, da democratização e preservação de recursos naturais, dos direitos à terra e dos direitos dos animais. A página parte do princípio inevitável de que os  problemas ambientais são também problemas sociais –  e em grande medida, são causados por eles.

Temas que serão abordados envolvem os seguintes assuntos:

Ecologia Social – Justiça ambiental – Vegetarianismo/veganismo – Permacultura – Reforma agrária – Direitos dos animais – Agroecologia e agrofloresta – Hortas Urbanas – Índios e povos originários – Áreas de preservação – Ecovilas – Crescimento econômico zero e decrescimento econômico – Slow Food – Consumo ético – Mutualismo – Democratização radical –  Bioarquitetura