Como o carnismo simboliza o machismo e a dominação da natureza (e pode destruir o futuro humano)

Há uma associação entre o carnismo e certa visão de masculinidade, que relaciona o consumo de carne a algo como ser “glutão” e a comer “como um viking”. Não há nada de muito viril em comprar carne já partida e resfriada no mercado. Menos ainda de um bicho que não foi caçado valentemente, mas enjaulado, maltratado e morto por outrem. Do mesmo modo, não parece masculino, nem admirável em nenhum sentido, comprar carne  barateada à custa de crueldades e graves problemas socioambientais que prometem impossibilitar uma vida decente aos nossos descendentes (graças ao aquecimento global do qual a pecuária é a segunda maior ou a maior contribuinte, dependendo do estudo).

Mas não é disso que vou escrever. Vou escrever sobre que tipo de visão de mundo patrocina o carnismo e obriga alguém a ter de se reafirmar tão veementemente como consumidor de carne – e como essa visão de mundo nos leva ao abismo.

carnismo aquecimentyo global

Voltando no tempo, nas sociedades de caçadores-coletores, a tarefa de conseguir carne para complementar a dieta humana era dos homens porque caçar e pescar demandavam mais força física que a coleta de vegetais. A partir do advento da agricultura e da criação de animais, no Oriente Médio há mais ou menos dez mil anos atrás, era tarefa dos homens cuidar desses dois afazeres, enquanto a mulher passou a ser relegada à funções domésticas. Na verdade, começa aí um processo de generalização da posição da mulher como subalterna. Mas não só da mulher.

Como sabemos, os primeiros excedentes da produção geraram as primeiras concentrações de riqueza, que foram usadas para criar um sistema repressivo para proteger esses detentores da riqueza (o embrião do Estado). Esse recém-criado sistema de detenção e manutenção de privilégios iniciou uma fase de dominação em larga escala dos proprietários sobre os sem posses; dos ricos sobre os pobres; dos detentores de aparelho repressor sobre os fracos; do homem sobre a mulher; e, claro, do homem sobre a natureza, com o início da alteração radical da paisagem natural (que culmina na ideia do antropoceno, o humano como força capaz de marcar uma era geológica).

É crucial perceber, no entanto, que não foi o Homem que dominou a natureza, mas o homem. Pelo menos em seus princípios, não foi a humanidade que se colocou fora da teia da vida e como subjugadora desta, mas sim a masculinidade. Assim apontam Adorno, Horkheimer e Murray Bookchin.

Diante disso, nada mais normal que o consumo de carne seja associado à masculinidade. Não se trata apenas de memória histórica subconsciente sobre a época em que os homens caçavam e as mulheres colhiam. Trata-se de um troféu de vitória, de um estandarte da dominação dos homens prevalentes sobre as mulheres, sobre a natureza e sobre os outros homens. Por isso, não é à toa que mencionei os vikings no início do texto. Eles são um povo adorado pelos supremacistas brancos extremistas dos EUA e são brancos, viris e comem carne como glutões.

Claro que a indústria da carne não é mantida apenas pelos homens ricos, os “de cima”. Os de baixo querem emergir e ser um carnista é um excelente símbolo inicial de poder, por razões que são tanto históricas quanto subconscientes. E as preferências do paladar, como se sabe, são construídas culturalmente.

A situação se agravou com o incremento das sociedades de mercado da era neoliberal. Numa jogada de mestre dos donos do mundo, foi concedida aos “de baixo” a oportunidade de se sentirem como os “de cima” (e se identificarem com eles ao invés de se organizarem entre si). Isso explica não somente uma recente admiração excessiva de alguns indivíduos das classes trabalhadoras por gadgets tecnológicos e grifes caras, mas também a própria reivindicação brasileira do churrasquinho de final de semana como parte da identidade popular.

Ou seja, a carne é barateada às custas de exploração dos “de baixo”, de animais e da natureza para fazer com que os “de baixo” pobres possam se sentir como os ricos na hora do almoço, aumentando os lucros dos produtores e a sensação de paz social.

No mais, a generalização e o protagonismo do consumo de carne ao estilo ocidental está devastando o planeta com requintes de crueldade. Quando o sul global entrar de vez nesse hábito, teremos o maior de todos os problemas já vivenciados. Espera-se para os próximos anos, por exemplo, que dezenas de milhares de pessoas tenham de fugir de suas casas apenas nas planícies de Bangladesh, graças à elevação do nível do mar, cujas causas incluem o carnismo.

É hora de sair da zona de conforto e debater o carnismo. E fazer isso é um passo fundamental para mudar o sistema econômico e produtivo. Em uma ou duas gerações, nenhuma bandeira contestatória fará sentido se esse debate não for feito desde agora. Não temos tanto tempo.

Mas ainda dá tempo.