A ideologia mortal

carnismo

O que aconteceria se você descobrisse que sua dieta colabora para criar enchentes, desertificação, desmatamento, milhões de refugiados ambientais e maus tratos a animais? Provavelmente nada. Isso porque o nosso modelo econômico criou e exporta uma ideologia chamada Carnismo. É  isso que propõe a psicóloga Melanie Joy.

Segundo ela revela em seu famoso livro “Why we love dogs, eat pigs and wear cows”, o carnismo é um conjunto de crenças coletivas que engloba vários mecanismos de defesa que impedem que a produção e consumo de carne feita nos padrões atuais seja questionada como dilema ético. Deste modo, o carnismo se comporta como ideologia dominante, discriminando e reduzindo aqueles que percebem sua atuação e fazendo com que debater a ética da produção e consumo de carne seja visto automaticamente como um assunto piegas, “coisa de vegetariano”.

No livro , Joy  encaixa esses mecanismos ideológicos de alienação em quatro categorias, que ela chama de “Os 4 Ns”. Com eles, a sociedade justifica o dilema ético do consumo de carne (nos padrões atuais) porque ele seria 1- Natural, 2- Normal, 3- Necessário  e 4- Bom (do inglês, nice).

1- O carnismo diz que comer carne é natural, pois somos onívoros. Mas ser onívoro não significa ter uma dieta baseada em carne. Os alimentos de origem animal comidos por nossos antepassados eram insetos e animais de caça e pesca apenas na quantidade necessária para a própria sobrevivência, enquanto nosso sistema econômico atual precisa gerar excedente, o que modifica completamente a escala. Fora isso, a justificativa do “natural” perde a força quando reivindicada por alguém que não vive mais em uma caverna.

2- Outro mecanismo de alienação do carnismo diz que a maioria das pessoas come carne, então este seria um hábito normal, dispensando o raciocínio acerca dos problemas causados. Nada de novo para quem já normalizou a escravidão,  o holocausto etc.

3- Apesar das provas e evidências citando a carne como causa de doenças, o carnismo tende a ver a falta de proteína especificamente animal como algo potencialmente perigoso à saúde. Logo, comer carne seria necessário, embora falte embasamento científico para isso e sobrem pesquisas relacionando o consumo de carne ao aumento de doenças coronárias, câncer, obesidade e diabetes.

4- O último argumento para não pensar sobre os efeitos da dieta com excesso de carne é que carne seria bom (nice), como se o paladar não fosse constituído culturalmente. E como se não fosse passível de ser reformulado diante de uma necessidade.

Sobretudo, além dos 4 Ns, o carnismo busca anular cognitivamente os outros seres que servirão de comida, reduzindo no imaginário social a capacidade deles de sentirem sofrimento. Assim, cria-se uma falta de identificação entre a carne e o bicho que deu origem a ela. Esta ligação, quando é feita, ocorre de forma idealizada, com mascotes e logotipos apresentando bichos vivos e felizes nos rótulos, que parecem se sobrepor aos bichos mortos do conteúdo.

Como qualquer ideologia dominante, parece que não pode haver vida fora do carnismo, obrigando os indivíduos a reproduzirem essas práticas. Os dados e estatísticas, no entanto, parecem mostrar justamente o contrário: é a vida que não poderá ser mantida nestes padrões. Atualmente, a pecuária responde por 51% das emissões de gases do efeito estufa, 91% do desmatamento da Amazônia, mais da metade do gasto de água em países desenvolvidos, 3 milhões de quilos de excrementos por minuto, pela tortura e morte de milhões de animais  e por 45% da ocupação de toda a área terrestre.

Levando em conta a proposta de Joy, é possível dizer que há uma ideologia mortal sustentando toda essa tragédia. Para a autora, portanto, melhorar o mundo passa por revelar os mecanismos de funcionamento da ideologia que sustenta esta dieta e, principalmente, reduzi-la ao máximo.

Racismo, sexismo… Especismo?

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O movimento abolicionista combatia a escravidão humana em uma época em que o uso de mão de obra escrava era tido como natural e tratar seres de outra origem étnica como propriedade era o padrão. No século XVIII e XIX, em boa parte do mundo, a cultura e a economia estavam sustentadas no escravismo e os que questionavam essa base eram tidos como utópicos.

No livro “Libertação Animal”, Peter Singer cunhou o termo especismo, significando a discriminação contra seres de outra espécie. Ele sustentou que todos os seres que são capazes de sofrer devem ter seu bem-estar levado em conta e que o modelo atual da indústria de alimentação de origem animal gera sofrimento desnecessário.

Segundo esta ótica, a qualificação atual dos animais como propriedade e a forma como a indústria alimentícia obtém seus lucros através de tortura e abate desnecessários de animais poderiam ser tidos como eticamente errados.

O autor ponderou que, do modo que a comida é produzida hoje, o vegetarianismo seria a única dieta moralmente aceitável e condenou também experiências com animais. Para Singer e outros defensores dos animais, essas atividades se justificam apenas em casos em que sejam pesados com justiça os benefícios e o sofrimento causado.

Essa proposta formou uma sólida base para os movimentos de direitos dos animais.

Ano novo, pecuária velha: um hábito injusto e danoso

DesmatamentoANO NOVO e a gente reclamando dos acontecimentos. Protestamos, doamos, nos organizamos, assinamos abaixo-assinado e agora estamos aí, cabisbaixos, que não adiantou nada. Mas será que fizemos mesmo o mínimo, o básico, o mais eficiente dentro do cotidiano para tornar o mundo um pouco melhor?

DESIGUALDADE. Um terço da população mundial vive majoritariamente de grãos e raízes, quase não come carne e não pode pagar por ela. Mas nós podemos. E com esse poder, consumimos muito mais recursos naturais que os demais. Um quilo de bife consome dez vezes mais água em sua produção que um quilo de cereal. Cada caloria de carne bovina produzida consome o mesmo que dez calorias de vegetais. Significa que, para manter a dieta carnívora de poucos, muitos terão negado seu acesso a recursos naturais vitais no futuro.

FOME, DESMATAMENTO E REFORMA AGRÁRIA. Quase 70% de toda área de produção de alimentos é ocupada pela pecuária, que alimenta bem menos pessoas. São 13,6 bilhões de hectares pro gado e mais 1/3 de toda a área da agricultura, que é dedicada a alimentar esse mesmo gado. Da vilã da Amazônia, a soja brasileira, 70℅ vão para ração de boi. Propondo que boa parte dessas terras fosse dedicada à agricultura para alimentar pessoas, teríamos mais alimentos e menor preço. Seria possível generalizar a agricultura orgânica, que precisa de mais espaço que a envenenada. Isso ajudaria na questão da fome, da reforma agrária e diminuiria as tensões no campo. Com tecnologia e esforço político, também daria para fazer grande reflorestamento onde há pastos.

SAÚDE PÚBLICA. Os gastos em saúde pública com doenças que poderiam ser evitadas com uma dieta não-carnívora chegam a 3% do PIB mundial. É um dinheiro que poderia ser usado em pesquisa e em tratamento de doenças que não são evitáveis.

CLIMA. A produção de carne responde por 18% das emissões de gases do efeito estufa. Vacas, em um número absurdamente artificial, peidam metano, que se acumula na atmosfera. Quatro pessoas carnívoras causam, com seu hábito alimentar, a emissão de mais gases que dois carros de uso médio. Uma redução branda no consumo de carne, nos níveis recomendados pela OMS, poderia baixar 15 a 40% as emissões. Isso ajudaria a evitar milhões de refugiados de tragédias ambientais que se espera para 2050.

TORTURA. Para atender a demanda de leite e carne, os empresários aumentam a produção recorrendo a métodos de tortura e confinamento de animais. Não se trata da morte em si, que existe na cadeia alimentar, mas de tortura sistemática de bichos que têm sistema nervoso complexo, capazes de sentir sofrimento como nós.

POR FIM, é claro que há limites para o voluntarismo pessoal porque mudanças são políticas e também precisam de organização e pressão. O consumo ético dentro de um sistema econômico injusto não é solução. Mas não fazer o mínimo na prática pessoal é fazer muito pouco. Existe um jeito eficaz e fácil de colaborar com o futuro, com as pessoas, com os bichos. É simples e sem pirotecnia. É reduzir o consumo de carnes. O futuro é de todos e começa no próximo ano. Vamos?

 

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(http://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/2016/09/12_desmatamento_youtube.jpg)