Consumo consciente e práticas pessoais mudam o mundo?

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Observo com espanto alguns sujeitos ligados às causas sociais adotarem uma postura, a meu ver, cínica com relação à mudança de atitudes pessoais que possam ser complementares a algum projeto de melhoria social ou de ampliação de liberdades. Deixar de repensar práticas individuais porque “não adiantam nada” parece uma forma de não se comprometer com planos de transformação social, pois a própria transformação demandaria essas reformulações.

Claro que o voluntarismo individual só adquire mais sentido quando combinado a propostas de soluções amplas.  Como escreveu o ativista britânico Nicolas Walter, as táticas na “guerra pela liberdade e igualdade” incluem “desde escaramuças guerrilheiras da nossa vida pessoal até as batalhas das grandes campanhas sociais”, até porque minorias progressistas “dificilmente têm condições de escolher o campo de batalha, mas devem lutar onde as coisas estão acontecendo”. Não tenho como discordar.

É com esse espírito que se deve pensar as práticas individuais. Não porque se tenha sua eficácia mensurada e comprovada (assim como em qualquer ativismo), mas porque são atitudes negligenciadas na democracia representativa, na qual o voto ganha destaque em detrimento de outras práticas. Assim como, por exemplo, o “consumo consciente” dentro de um capitalismo cruel pode funcionar muito pouco, o ato de votar dentro desse mesmo sistema certamente funciona menos ainda. Pelo menos o “consumo consciente” minora problemas decorrentes do sistema, enquanto não se poderia dizer necessariamente o mesmo sobre o ato de votar.

Ainda assim, alguns grupos ligados às causas sociais recusam certas atitudes e práticas individuais, afirmando normalmente que elas culpabilizam o indivíduo ao invés de culpar empresas, corporações e governos. Só que as atitudes individuais não excluem ou anulam quaisquer campanhas sociais amplas e ainda potencialmente reduzem o sofrimento de seres e populações mais afetados por atividades negativas de empresas, corporações e governos. Ou seja, não há contraindicações para estas práticas. A recusa de aceitar isto parece apenas preguiça.

Quando se exclui as atitudes individuais do repertório de ação, entra-se no jogo dos grupos conservadores, que também procuram poupar o indivíduo, pois acreditam que este deve consumir livremente, sem maiores questionamentos, ao invés de buscar a liberdade fora do consumo.

Enquanto isso, apenas na África, nos últimos 20 anos, 10 milhões de pessoas pobres tiveram de fugir de suas casas devido à desertificação causada pelo aquecimento planetário. E já sabemos que uma sociedade que sobreviva ao aquecimento e se mantenha nos limites do saudável terá de se adaptar não somente a mudanças de produção, mas também a mudanças de consumo. Por que não começar?

“É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática”. Paulo Freire

Este é o caso da carne. Olhando mais de perto seu consumo e produção, vemos que as emissões de metano, causadas pela pecuária, somadas às de carbono, causadas pelo desmatamento que a pecuária demanda, fazem desta atividade a provável maior causa do problema do aquecimento global, podendo chegar a ultrapassar os combustíveis fósseis. Diante disso, não parece inteligente culpar o sistema econômico abstratamente sem verificar se a atividade pecuarista nesta escala de consumo seria, de fato, viável em outro sistema econômico. Bem, não seria.

A “guerra pela liberdade e igualdade” inclui “desde escaramuças guerrilheiras da nossa vida pessoal até as batalhas das grandes campanhas sociais”, até porque minorias progressistas “dificilmente têm condições de escolher o campo de batalha, mas devem lutar onde as coisas estão acontecendo”. Nicolas Walter

E só aumenta o número de pessoas a fugir de desastres causados pelo aquecimento global. E só aumenta a forma cruel como são tratados os mamíferos para que a carne seja mais e mais comercializada.

Por fim, deve-se criticar as limitações dos hábitos pessoais e do consumo consciente, até para angariar apoio a transformações mais profundas. Mas não dá para usar esta crítica como uma desculpa cínica para deixar de repensar e, se possível, reformular os próprios hábitos. Há muito trabalho a fazer para operar mudanças nas atividades humanas. E, para isso, é importante notar que práticas individuais e campanhas sociais não são mutuamente excludentes. Elas podem ser complementares e frequentemente funcionaram melhor ao longo da história quando acionadas juntas.

Como afirmou Paulo Freire, “é fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática”. Nem sempre é possível, nem sempre modifica o mundo, mas é bem melhor que cinismo.

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