Como a questão ambiental expõe as semelhanças da esquerda autoritária com a direita

Volta e meia circula na internet um texto de um famoso filósofo propondo que mudanças comportamentais para reduzir o impacto da ação humana são inúteis frutos de um sentimento de culpa do superego. Concordamos com o pressuposto de que repensar e reformular as bases do sistema é o mais importante. Mas o curioso é que, ao propor a  sua versão de primazia de uma mudança social abstrata sobre a ação prática de pequena escala, o autor defende a mesma atitude que a direita da economia liberal. “Não mexa com o indivíduo! Não mexa com o nosso consumo!”.

Outro ponto importante é que o autor do texto é o Slavoj Zizek. Trata-se de um filósofo divertido e genial, mas com opiniões políticas autoritárias e egocêntricas. Exemplos: disse preferir Trump a Hillary; defendeu mobilização militar contra entrada de imigrantes na Europa; optou por ser arqui-inimigo e fazer troça de um dos principais pensadores do século XX, Noam Chomsky.

O que a autoria do texto tem a ver com isso? Tudo. Porque é possível que o autor, sendo quem é, esteja propondo que o indivíduo não altere nada em sua rotina justamente para que espere a ação redentora e definitiva de uma Vanguarda Revolucionária ao estilo Lenin (de quem Zizek é fã). Ou talvez proponha que nós deveríamos deixar um novo Grande Líder pensar isso em nosso lugar e só o que resta a fazer é colocar esse Grande Líder no poder.

Invertendo o jogo de Zizek, não seria a fé na espera da mudança política um fruto de um sentimento de culpa do superego? Uma forma de aplacar a consciência enquanto se dirige um trecho que poderia ser percorrido de transporte público ou bicicleta?

Parece haver um quadro claro de proposta de ações ambientais de acordo com a visão política. À direita, você não precisa se preocupar com seus hábitos porque vai dar tudo certo contanto que botemos uns pobres na cadeia e nada interfira na economia. À esquerda, em sua versão zizekiana e autoritária, você não precisa se preocupar igualmente com seus hábitos porque o que interessa é colocar o grupo certo de pessoas certas no poder e eles te guiam para o Mundo Novo.

Olhando esse quadro, a parte autoritária da esquerda se assemelha bastante à direita. Já vimos essa semelhança no século XX (e vimos também que a direita liberal só propõe soluções democráticas desde que ninguém mexa na economia). Não é à toa que na Polônia, perto da terra natal de Zizek, um ministro do governo de extrema direita escolheu como alvo o mesmo grupo criticado pelo filósofo, ao dizer que sua missão é acabar com “a Europa apodrecida de vegetarianos e ciclistas”, além das energias limpas.

Enquanto o texto de Zizek conclui com abstrações e indicando a necessidade de um futuro comunista abstrato, a conclusão aqui será interpelar as pessoas para que partam para a ação, seja na mudança política ou na mudança de hábitos. Aliás, não há nada apolítico no mundo, muito menos nos nossos hábitos. As boas mudanças podem vir da escala individual, da macropolítica e, principalmente, dos grupos políticos independentes de base. E quando há urgência em achar soluções, não há razão para cortar opções.

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One thought on “Como a questão ambiental expõe as semelhanças da esquerda autoritária com a direita

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