Ensaio de Murray Bookchin – Ecologia Social ou Ecologia Profunda: um desafio para o movimento ecologista

Murray Bookchin foi um autor prolífico e fundamental para a ecologia política verdadeiramente democrática. Neste ensaio, de 1987, ele tenta dar trilhos ao movimento ecologista, criticando as corruptelas e vertentes que ele considerou regressivas e até reacionárias.

Apesar de algumas críticas certeiras, seu temperamento aguerrido e crítico acaba por não fazer pontes com outras visões ecologistas e socialistas libertárias. Esse defeito não se sobrepõe de forma alguma ao pensamento original e vivaz do autor, cujas propostas são pouco conhecidas do público brasileiro.

O texto está no original em inglês. Disponível para download abaixo.

Ou, para saber mais sobre Bookchin, clique aqui.

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Como a questão ambiental expõe as semelhanças da esquerda autoritária com a direita

Volta e meia circula na internet um texto de um famoso filósofo propondo que mudanças comportamentais para reduzir o impacto da ação humana são inúteis frutos de um sentimento de culpa do superego. Concordamos com o pressuposto de que repensar e reformular as bases do sistema é o mais importante. Mas o curioso é que, ao propor a  sua versão de primazia de uma mudança social abstrata sobre a ação prática de pequena escala, o autor defende a mesma atitude que a direita da economia liberal. “Não mexa com o indivíduo! Não mexa com o nosso consumo!”.

Outro ponto importante é que o autor do texto é o Slavoj Zizek. Trata-se de um filósofo divertido e genial, mas com opiniões políticas autoritárias e egocêntricas. Exemplos: disse preferir Trump a Hillary; defendeu mobilização militar contra entrada de imigrantes na Europa; optou por ser arqui-inimigo e fazer troça de um dos principais pensadores do século XX, Noam Chomsky.

O que a autoria do texto tem a ver com isso? Tudo. Porque é possível que o autor, sendo quem é, esteja propondo que o indivíduo não altere nada em sua rotina justamente para que espere a ação redentora e definitiva de uma Vanguarda Revolucionária ao estilo Lenin (de quem Zizek é fã). Ou talvez proponha que nós deveríamos deixar um novo Grande Líder pensar isso em nosso lugar e só o que resta a fazer é colocar esse Grande Líder no poder.

Invertendo o jogo de Zizek, não seria a fé na espera da mudança política um fruto de um sentimento de culpa do superego? Uma forma de aplacar a consciência enquanto se dirige um trecho que poderia ser percorrido de transporte público ou bicicleta?

Parece haver um quadro claro de proposta de ações ambientais de acordo com a visão política. À direita, você não precisa se preocupar com seus hábitos porque vai dar tudo certo contanto que botemos uns pobres na cadeia e nada interfira na economia. À esquerda, em sua versão zizekiana e autoritária, você não precisa se preocupar igualmente com seus hábitos porque o que interessa é colocar o grupo certo de pessoas certas no poder e eles te guiam para o Mundo Novo.

Olhando esse quadro, a parte autoritária da esquerda se assemelha bastante à direita. Já vimos essa semelhança no século XX (e vimos também que a direita liberal só propõe soluções democráticas desde que ninguém mexa na economia). Não é à toa que na Polônia, perto da terra natal de Zizek, um ministro do governo de extrema direita escolheu como alvo o mesmo grupo criticado pelo filósofo, ao dizer que sua missão é acabar com “a Europa apodrecida de vegetarianos e ciclistas”, além das energias limpas.

Enquanto o texto de Zizek conclui com abstrações e indicando a necessidade de um futuro comunista abstrato, a conclusão aqui será interpelar as pessoas para que partam para a ação, seja na mudança política ou na mudança de hábitos. Aliás, não há nada apolítico no mundo, muito menos nos nossos hábitos. As boas mudanças podem vir da escala individual, da macropolítica e, principalmente, dos grupos políticos independentes de base. E quando há urgência em achar soluções, não há razão para cortar opções.

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A ecofeminista indiana enfrenta a máquina mais mortal jamais criada

A principal voz do socioambientalismo internacional vem de uma mulher. E, para ela, as mulheres são a chave da mudança.

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Meados dos anos 1970. Mandal, Índia. Um grupo de homens munidos de serras e tratores se aproxima das árvores próximas ao vilarejo. Com autorização do governo, eles pretendem cortar centenas de árvores para levar a uma fábrica longínqua de raquetes de tênis. Uma menina vê a cena e corre para o povoado para avisar que a floresta que garante o sustento de todos está para ir abaixo. Vinte e sete mulheres atendem o chamado e enfrentam os madeireiros desarmadas. Discutem, argumentam, mas os homens começam a gritar e a abusar delas, ameaçando-as com armas, enquanto vão em direção aos troncos. Em um ato de bravura extrema, as mulheres começam a abraçar as árvores e permanecem lá por quatro horas até que os madeireiros desistissem. No dia seguinte, quando eles retornaram para cumprir o serviço, se depararam com mais gente ainda abraçando as árvores. As notícias tinham se se espalhado pelos vilarejos dos arredores e a população resistiu por quatro dias até expulsar os invasores.

Essa batalha foi apenas um capítulo de uma guerra contra o desenvolvimentismo conhecida como Movimento Chipko. Este foi o batismo político de Vandana Shiva, escritora com mais de 20 livros publicadas e figura central do movimento altermundista. Elas não fazia parte daquele pequeno grupo inicial de mulheres e nem veio da vida camponesa, mas juntou-se à causa e a expandiu, no ativismo e nas ideias. Física com doutorado em filosofia, é membro do comitê científico da Fundación Ideas. Ganhou prêmios da Livelihood Award ( nobel alternativo da paz) e  da Organização Internacional para uma Sociedade Participativa.

Vandana Shiva escreve e fala sobre agricultura, alimentação, biodiversidade, bioética e feminismo. Colaborou em organizações de ecologia política e participativa na Ásia, África, América Latinta e Europa.

Grande parte de sua vida foi dedicada a defender a biodiversidade e o conhecimento dos povos tradicionais do planeta. Ficou famosa sua luta contra as patentes de sementes, quando uma megaempresa privatiza plantas, obrigando os agricultores à dependência completa e colocando em risco a segurança alimentar mundial.

Em 1982, a cientista fundou na Índia o Research Foundation for Science, Technology and Ecology, que ela define como um movimento que faz pesquisa à serviço dos movimentos populares e rurais.

Ecofeminismo

Vandana Shiva fundou a organização ecofeminista Navdanya, que, desde 1984, promove a conservação da biodiversidade, a reforma agrária, a agricultura orgânica e os direitos dos povos tradicionais. O Navdanya faz parte do movimento Terra Madre Slow Food e está espalhado ao longo de 16 estados da Índia. Ajudou a formar mais de 50 bancos de sementes comunitários, treinou meio milhão de agricultores em agricultura sustentável, revivendo técnicas tradicionais, e ainda estabeleceu uma imensa rede de comércio justo de compra direta do produtor.

De acordo com Vandana Shiva, em seu artigo Empowering Women, uma abordagem mais produtiva e ecológica da agricultura deve passar por engajar as mulheres e combater a lógica patriarcal de exclusão de gênero. Para ela, um sistema cujo foco é a mulher poderia modificar o mundo positivamente e que o feminismo tem grande responsabilidade em confrontar a destruição ambiental.

Segundo a indiana, o roubo da biodiversidade pelos colonizadores europeus foi uma ataque ao trabalho de séculos que as mulheres de povos tradicionais fizeram de preservar e manter as sementes.

Monoculturas da mente

Para Vandana Shiva, as monoculturas agropecuárias que destroem os solos e acabam com a água são um desdobramento das “monoculturas da mente”. O desenvolvimentismo se alastra através de diferentes ideologias políticas e culturas e é uma máquina de morte a qual se deve combater com diversidade, de culturas humanas e agrícolas.

A autora ainda enfrentou a Monsanto e iniciou um movimento feminista internacional chamado “Mulheres Diversas pela Diversidade” que enfrentou os regulamentos inescrupulosos que a Organização Mundial de Comércio fazia em detrimento da vida, das mulheres e dos países pobres.

“Os povos tropicais também se tornam um lixo histórico descartável. Em lugar do pluralismo cultural e biológico, a fábrica produz monoculturas sem sustentabilidade na natureza e na sociedade. Não há lugar para o pequeno (…) A diversidade tem de ser erradicada como uma erva daninha e as monoculturas uniformes – de plantas e pessoas – têm de ser administradas de fora porque não são mais autorreguladas e autogeridas (…)

Não há sobrevivência possível para a floresta ou seu povo quando eles se transformam em insumo para a indústria. A sobrevivência das florestas tropicais dependa da sobrevivência de sociedades humanas cujo modelo são os princípios da floresta”

Vandana Shiva, em Monoculturas da Mente

Evidente que toda essa movimentação não passou incólume, já que a máquina mais mortal jamais criada – o desenvolvimentismo – age como um rolo compressor e costuma acabar com seus oponentes, financeiramente ou mesmo à bala (como é comum no Brasil). Em 2004, vazou um documento oficial do governo indiano, destinado ao primeiro ministro, acusando Shiva e o Navdanya de estarem contra os interesses nacionais e recomendando vigilância.

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