70% do desmatamento na Am. Latina é culpa do agronegócio. E este é apenas um dos problemas.

No Brasil, o agronegócio ocupa muito espaço e não alimenta nem 30% da população. Ao contrário, forma milícias para matar gente, lidera casos de trabalho escravo e intimida opositores. 

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Imagine uma organização feita por uma minoria de indivíduos que é dona da maioria das terras. Cujos membros estão entre os campeões de trabalho escravo e desmatamento e chegam a formar milícias de terroristas armados. Uma organização que tem representantes na política que se empenham em intimidar opositores. Este é o agronegócio no Brasil.

Um relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), ligada à ONU, demonstrou veementemente que o agronegócio está destruindo recursos da América Latina. Segundo a agência, 70% do desmatamento ocorrido na região entre 2000 e 2010 se deu por culpa dos grande produtores rurais (1).

Segundo outro relatório internacional, as comoditties que mais causaram destruição de florestas foram, nesta ordem (2): gado, soja, óleo de palma e madeira.

Se não bastasse a devastação causada por esse setor econômico, pesa sobre ele o fato de que concentra terras, deixando gente sem trabalho e sem possibilidade de autossustento. Segundo pesquisa da OXFAM, 1% dos produtores rurais possuem 45% de toda a terra no Brasil (2).

Toda essa concentração de terras e devastação podem até servir para aumentar o Produto Interno Bruto, mas o brasileiro, ao que parece, não come PIB. Vem da agricultura familiar 70% de toda a alimentação dos brasileiros (3), enquanto a destruição do agronegócio serve para exportação e para fazer ração de vaca.

Se isso tudo não bastasse, o agronegócio brasileiro é responsável por formar grupos armados que assassinam pequenos produtores, índios, quilombolas e ativistas socioambientais (5). Provavelmente graças a isso, o Brasil foi campeão de assassinatos de ativistas da terra e do meio ambiente em 2015, com 50 casos no ano (6)

Vários setores do agronegócio estão entre os principais acusados de trabalho escravo (7) e seu braço político, a bancada ruralista, participou ativamente da ruptura democrática de 2016 e chega a ameaçar a liberdade de expressão. Um de seus membros, o senador Ronaldo Caiado, propôs instaurar uma comissão para intimidar uma escola de samba do Rio de Janeiro, cujo tema era favorável aos índios do Xingu (8).

O que pode ser feito quanto a isso?

  • Exigir, através de manifestações e organizações políticas, que os culpados por crimes (escravidão, assassinato, extração ilegal de madeira) sejam penalizados.
  • Reduzir ao máximo ou recusar o consumo de carne e produtos oriundos da pecuária.
  • Preferir produtos orgânicos, certificados, da agricultura familiar. Tentar comprar direto do produtor.
  • Defender, nos meios a que tiver acesso, os grupos que sofrem com o rolo compressor do agronegócio.
  • Não apoiar candidaturas políticas que tenham ligação com a bancada ruralista ou que tenham objetivos desenvolvimentistas.
  • Outras formas de protesto? Use a criatividade.

 

(1) http://www.fao.org/documents/card/en/c/6547e46e-3e6f-4c47-8dcb-8c5c19a18e00/

(2) http://www.forest-trends.org/documents/files/doc_5248.pdf

(3) http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2016-11/menos-de-1-das-propriedades-agricolas-detem-quase-metade-da-area-rural

(4) http://www.brasil.gov.br/economia-e-emprego/2015/07/agricultura-familiar-produz-70-dos-alimentos-consumidos-por-brasileiro

(5) https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/reuters/2017/01/12/fazendeiros-brasileiros-formam-milicias-contra-ativistas-da-terra-diz-human-rights-watch.htm

(6) http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2016-06/brasil-lidera-ranking-de-mortes-de-ambientalistas-em-2015-diz-ong

(7) http://outraspalavras.net/deolhonosruralistas/2017/01/18/pecuaria-cafe-e-madeira-lideraram-casos-de-trabalho-escravo-em-2016/

(8) http://brasil.elpais.com/brasil/2017/01/13/politica/1484343086_484320.html?id_externo_rsoc=FB_BR_CM

 

O glitter e a imbecilidade geral da nação

(Texto com opinião do autor, não necessariamente da página)

No país do carnaval, o texto a respeito dos malefícios do glitter recebeu enorme atenção e foi recebido com grande polêmica. Em três dias teve 40mil leitores, choveram compartilhamentos, comentários, e-mails, convite para entrevista (1) e uma reportagem em jornal (2).

Muitos leitores se preocuparam em entender mais, propuseram soluções, fizeram boas críticas e expuseram suas dúvidas. Em grupos virtuais sobre carnaval de rua, ao que parece, houve uma reação politizada e positiva de solidariedade mútua e grande empenho em mitigar os danos do glitter ao ambiente. Outra parte dos leitores prosseguiu suas vidas com indiferença. Curtirão o carnaval, com glitter ou não, sem se demorarem em pensamentos. Até aí, nada de novo no front. O que causou espanto foi a reação de uma terceira parcela de leitores.

Muitas postagens brotaram na internet criticando o texto do PEDRA por ser demasiado piegas, ingênuo, ou por estar deixando de criticar os “verdadeiros poluidores”. Estas críticas não seriam um problema se os autores tivessem se dado ao trabalho de ler os textos da página, como no que falamos de escravidão indígena, ou da crítica ao “governo” Temer. Esses críticos tampouco leram a linha editorial do PEDRA, que diz que defende a “reversão dos problemas ambientais através de ações tanto políticas quanto pessoais e o reconhecimento da responsabilidade de todos na solução”.  Por conta dessa falta de leitura foi incluído um adendo, no texto do glitter, de que a página “não apoia a espera por uma solução que vá cair do céu. E por isso apoia tanto soluções macropolíticas quanto soluções a partir da ação individual e, principalmente, a partir de organização política de base”.

Fazer críticas politizadas sem se dar ao trabalho de ler é ruim, mas os problemas não pararam por aí. O conteúdo de certas críticas era realmente surpreendente. Houve um texto  “de esquerda” que defendia o glitter como libelo contra a repressão ao divertimento e à liberdade. Trata-se, precisamente, do mesmo argumento usado por americanos republicanos e brancos para defenderem a compra de seus carros Hummer (3). Criticados pela esquerda ambientalista porque seus veículos gastam absurdamente mais combustível, eles defendem exatamente o direito ao consumo individual não receber interferência de argumentos alheios ou coletivos.

Outro crítico defendeu que o uso do glitter, por ser sazonal, não fazia mal o suficiente ao ambiente. Mas pediu aos seus leitores que deixassem de usar esfoliantes porque estes também possuem microplásticos, mas são usados todo o ano. Este é um argumento preocupante porque, no caso, quem define a quantidade mínima que deve começar a preocupar todos nós e motivar uma ação de redução do consumo é ele, o crítico. Trata-se de uma métrica arbitrária, que denota uma proposta autoritária de lidar com o problema do lixo. A postagem que pregava que os esfoliantes são maus e o glitter é bom já tinha mais de 50 compartilhamentos em um dia.

O âmago de algumas destas críticas pareceu ser apenas uma reação à recepção positiva de um texto informal por grande parte do público, pois isto tira de alguns o poder de ter a Verdadeira proposta de ação política. Parece tratar-se de uma preferência estética por certo tipo de comportamento aparentemente anti-hegemônico. Se recusar o glitter subitamente tornou-se hegemônico, coisa comum, qual a graça de combater seus efeitos?

Interessante é que no texto do glitter veiculado pelo PEDRA, sugerimos que os leitores se divirtam “sem destruir”, pois o “espírito anárquico do carnaval não combina com prepotência”. Relendo agora, depois da repercussão, isso diz ainda mais coisa do que pretendia inicialmente.

O consumo consciente é um ato político, que pode pressionar por mudanças através do próprio sistema de mercado. Por isso, ele não é revolucionário e nem se propõe a ser, mas tampouco está impedido de ser combinado com outras ações de cunho mais evidentemente transformador. Há quem opte somente por militar em outras atividades e ignorar a importância da vida cotidiana e das práticas pessoais. Mas, como foi mencionado no texto do PEDRA, fazer um pouco nas práticas simples rotina é uma forma de fazer um mínimo.

O texto do glitter veio a público precisamente para dar mais um conhecimento, mais uma ferramenta. O leitor pode achar que esta recusa ao microplastico do glitter é uma forma boa de colaborar ou não. Ou pode ir além e deduzir daí que nosso sistema político-econômico fabrica itens tão poluentes e desnecessários como o glitter sem nenhuma mediação das pessoas. O leitor pode notar que as pessoas não têm poder algum sobre o que é produzido nem sobre as prioridades da produção. Quem sabe o que fará o leitor munido dessas informações? Contra a imbecilidade geral da nação, mais informação. E menos glitter, talvez.


(1) O convite da rádio CBN foi recusado porque esta não é uma página de reciclagem ou de gestão ambiental, mas de ecologia política. Não havia razão para dar fama à página enquanto especialistas no tema deixam de ser consultados.

(2)http://oglobo.globo.com/sociedade/sustentabilidade/ambientalistas-pedem-boicote-purpurina-glittler-no-carnaval-20820696?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilhar

(3) O Hummer é a versão civil do Humvee, um carro militar cuja estrutura imensa se movimenta com o gasto de muita gasolina.

Glitter e purpurina: a brincadeira de carnaval que destrói a vida nos oceanos

Depois da festa, quando você toma banho, as partículas de glitter coladas em seu corpo escorrem pelo ralo e se juntam às 8 milhões de toneladas de plástico que são lançadas nos oceanos todos os dias.

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É típico do carnaval de rua: corpos pouco vestidos mas com muita purpurina e glitter, em uma festa bonita e colorida. Mas o que acontece depois? Se você pensou ressaca, você acertou também. Mas a ressaca passa e a vida segue, enquanto o glitter e a purpurina vão aniquilando a vida por onde passam.

Microplásticos é como são chamados as minúsculas partículas feitas desse material que, basicamente, não se decompõe. No caso dos microplásticos usados na pele durante o carnaval, é comum que sejam feitos de copolímeros de plástico e folículos de alumínio. Depois da festa, quando você toma banho, as partículas coladas em seu corpo escorrem pelo ralo e se juntam às 8 milhões de toneladas de plástico que são lançadas nos oceanos todos os anos.

LEIA MAIS: Como o consumo de carne está associado ao machismo e devastando o mundo

Os microplásticos são do pior tipo possível. Por conta de seu tamanho, é praticamente impossível recolhê-los e, por essa razão, eles somam 85% de todo o plástico encontrado na natureza. Nas águas, os plásticos costumam matar peixes, tartarugas e outros seres, que os ingerem confundindo com comida. O glitter e a purpurina são ainda mais maléficos: podem ser engolidos desde pelos seres mais diminutos até os do topo da cadeia alimentar.

Além da morte dos animais, há ainda a questão econômica. Com a diminuição da vida aquática, toda a pesca fica prejudicada e, também, todos os povos e comunidades que dependem dela para sobreviver.

Você pode até pensar que as grandes indústrias poluem demais o ambiente e que um pouquinho de glitter não vai fazer esse mal todo. Mas, convenhamos, o glitter e a purpurina são tão necessários assim? Fazer menos que o mínimo para tornar o mundo melhor é realmente fazer muito pouco.

O espírito anárquico do carnaval não combina com prepotência. Neste carnaval, divirta-se sem destruir. Cuide dos oceanos e descuide do resto. Boa festa!

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Adendo Glitter: Muitas pessoas perguntaram se retirar as purpurinas com algodão e demaquilante resolveria a questão. Bem, plástico continua sendo plástico e pode levar mais de um milhão de anos para se decompor. Na terra ou na água, ele terá impacto. A política do consumo humano racional e autoconsciente costuma seguir os 4Rs: recuse, reduza, reutilize, recicle.

Adendo 2: A postagem deu enorme polêmica no Facebook. Houve até quem dissesse que o texto culpabilizou os indivíduos em detrimento dos grandes poluidores. Mas lá na parte “Sobre” está explícito, também, um dos eixos centrais da página: “Reversão dos problemas ambientais através de ações tanto políticas quanto pessoais e o reconhecimento da responsabilidade de todos na solução”. Ou seja, o PEDRA não apoia a espera por uma solução que vá cair do céu. E por isso apoia tanto soluções macropolíticas quanto soluções a partir da ação individual e, principalmente, a partir de organização política de base.

Comentário sobre a repercussão aqui.

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(Fonte da imagem: http://www.fauna-flora.org/wp-content/uploads/Microplastics-Credit-Joe-Dowling-Sustainable-Coastlines-Marine-Photobank.jpg)

Como propor uma economia ecológica em meio ao radicalismo do livre mercado?

Na verdade, uma economia ecológica chega a ser um pleonasmo. O radical grego eco vem de oikos, que significa casa. Uma disciplina estuda a casa e outra a organiza. O problema é justamente que os organizadores da casa querem ampliar as dependências e fazer puxadinhos infinitamente, mas com matéria-prima finita.

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No Brasil, tem sido comum ter que defender um ponto de vista que nem sequer é o seu. A radicalização opressiva dos defensores de políticas de livre-mercado e austeridade faz com que tenhamos que defender qualquer outra opção pouco menos nefasta do ponto de vista socioambiental, de modo que qualquer ideia nova não consegue adentrar o debate macroeconômico.

A política neoliberal ganhou uma aderência enorme no público brasileiro graças a difusores muito bem pagos na mídia e na internet, que não mencionam, propositalmente, tudo o que sabem. Há toda outra parte de sua disciplina, mesmo sem vinculação alguma com a política de esquerda, que é absolutamente anti-neoliberal.

Após 40 anos de infortúnios causados pela aplicação quase religiosa dessa doutrina, mesmo economistas conservadores já não são rígidos sobre essas ideias. Além destes, há  os que defendem um capitalismo associado a políticas distributivas e regulações, como os famosos Joseph Stiglitz e Amartya Sen. Há todos os keynesianos, que focam no estímulo à economia e defendem a linha desenvolvimentista do Plano Marshall e do New Deal de meados do século XX. Isso tudo apenas no paradigma da política de centro-direita, sem nem sequer mencionar ainda qualquer alternativa de economia ecológica.

A consequência de não informar o público brasileiro de todas as possibilidades do saber econômico é que os debates ficam restritos a uma guerra fria sem nexo, em que os dois lados são capitalistas e adeptos da ideologia do crescimento ilimitado. Inserir o tópico ecologista em uma discussão econômica no Brasil fica quase impossível.

A questão da desigualdade e o meio ambiente

Em todos os cenários traçados por pesquisadores de várias disciplinas, chegou-se  à conclusão quase unânime de que a natureza produz o suficiente para atender as demandas de nossa superpopulação humana. Então como podem os recursos naturais estarem acabando e em ritmo acelerado?

Certamente, diminuir a população humana não seria má ideia. As vantagens poderiam ser várias. Mas os problemas de escassez de recursos que devemos enfrentar ainda neste século são muito mais oriundos da má distribuição de riquezas. Já virou lugar-comum a célebre constatação de que, se todos os humanos consumissem como um estadunidense médio, precisaríamos de vários planetas Terra. O número varia um pouco dependendo do instituto de pesquisa citado, mas a conclusão é inequívoca: não vai dar pé.

O mundo econômico vêm discutindo como reduzir o problema da desigualdade, sobretudo após a crise de 2008. É claro que cabeças diferentes vão propor soluções diferentes, mas parte dos defensores do livre mercado, especialmente aqui no Brasil, recusam-se sequer a reconhecer que o problema exista. Alguns neoliberais chegam a apontar problemas de metodologia nas pesquisas da OXFAM, que expuseram um incremento vigoroso da desigualdade. Porém, um economista da estirpe de Joseph Stiglitz usa os dados da OXFAM sem mal estar algum, o que dá bastante lastro à metodologia utilizada.

Segundo alguns neoliberais ortodoxos, não teria havido aumento da renda dos mais ricos, e sim aumento da renda declarada deles. Pesquisas como as de Emmanuel Saez, no entanto, parecem derrubar este mito, pois levam em conta essa crítica e chegam à mesma conclusão da OXFAM e de medalhões como Piketty.

Propondo uma economia ecológica

Se o pensamento da economia brasileira está tão religiosamente voltado ao livre mercado, chegando a ponto de negar a desigualdade, como propor uma economia ecológica? Tudo que não for radicalmente neoliberal é visto como uma sucursal do inferno por boa parte da opinião pública, que replica os difusores exasperados do neoliberalismo.

Nesse cenário, uma ideia positivamente diferente, que pode ser entendida como radical, não possui muito espaço para florescer. Diante disso, é preciso saber optar pela opção menos pior em cenários limitados. Para enfrentar o dogmatismo neoliberal, é pertinente posicionar-se ao lado daqueles que, pelo menos, entendem que a sociedade precisa ter o poder de interferir na economia (no mínimo, através do Estado, embora não seja esta a proposta do texto, como se lerá adiante).

Mas apenas reconhecer a opção menos pior não é suficiente. Para realmente minar a desigualdade e os problemas ambientais que dela decorrem, é preciso entendê-la também como política, não só econômica. Ou seja, é propor que a regulação do mercado se dê, cada vez mais, pela participação direta dos indivíduos nas decisões políticas. Democratizar a participação das pessoas através de mecanismos de democracia direta e participativa é um recurso inevitável se quisermos corrigir a desigualdade. Democracia econômica de verdade é incluir todos nos processos decisórios a respeito das riquezas, dos recursos disponíveis e de sua manutenção.

Além disso, também não se pode deixar de fazer a crítica ambientalista mais ampla e apontar como a economia global se tornou um sistema autofágico. É preciso “sair do armário” e criticar o crescimento econômico ilimitado como a estupidez efêmera que ele é. O mito de que o aumento do PIB gera riqueza para todos os indivíduos já foi demolido diversas vezes em pesquisas econômicas. Além do mais, não pode ser esta a solução para tudo, pois não dá para crescer infinitamente com recursos naturais finitos. É preciso pautar a discussão econômica de forma diferente, visando o bem-estar social e a manutenção deste bem-estar  ao longo dos tempos através da preservação ambiental.

Na verdade, uma economia ecológica chega a ser um pleonasmo. O radical grego eco vem de oikos, que significa casa. Uma disciplina estuda a casa e outra a organiza. O problema é justamente que alguns dos organizadores da casa querem ampliar as dependências infinitamente – construindo quartos suntuosos para uns e fazendo puxadinhos insalubres para outros -, mas com matéria-prima finita.

Se começar as bases de uma economia justa e democrática é necessário, mitigar a ideologia do crescimento ilimitado é urgente. Qualquer opção que seja menos que isso poderá nos roubar o futuro.

Figura: quadrinho de Andy Singer. No original, development.

Estado do Rio anuncia demissão de todos os guarda-parques

Até 12 anos atrás, o Estado era o campeão de desmatamento da Mata Atlântica. Hoje, a situação está razoavelmente sob controle. Funcionários foram contratados há 10 anos.

Os 163 guarda-parques do Rio serão demitidos até abril, afirmou o Instituto Estadual do Ambiente. Segundo o órgão, por conta da crise financeira do estado, o serviço de fiscalização das Unidades de Conservação será terceirizado para uma Organização Social.

O governo pagará 11 milhões de reais para a OS que assumir o serviço. O caso chama atenção porque a queda do desmatamento no estado coincide mais ou menos com a data de contratação dos guarda-parques. Até 12 anos atrás, o Estado era o campeão de desmatamento da Mata Atlântica e, hoje, a situação está razoavelmente sob controle. Funcionários foram contratados há 10 anos.

 

Economia socioambiental: o decrescimento econômico entra no parlamento britânico

O economista ecológico Federico DeMaria participou de debate no parlamento britânico sobre decrescimento econômico.

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The end of growth? Este foi o nome do debate ocorrido no parlamento britânico do qual participou o economista Federico DeMaria, segundo ele contou à página virtual Ecologist, neste dia 16 de janeiro de 2017.

Segundo ele, o consenso foi que o crescimento econômico, ao invés de ser visto como uma panaceia para resolver todos os problemas sociais, seria um problema em si. E a causa de vários outros problemas.

Os debatedores levaram diversos argumentos para demonstrar que o crescimento econômico seria insustentável ambientalmente, indesejável do ponto de vista social e que pode ter chegado ao fim de seu ciclo.

No artigo resultante da empreitada, eles concluíram que  o decrescimento econômico enfrenta a hegemonia do crescimento e convida para uma redistribuição da produção em consumo em menor escala nos países industrializados como meio de atingir sustentabilidade ambiental, justiça social e bem-estar.

 

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Corporações gastam milhões para você achar que está se libertando do padrão de beleza

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É fundamental para a saúde psíquica a aceitação do próprio corpo, afinal somos variados e as diferenças físicas são exuberantes, evidenciando o pertencimento da humanidade à multiplicidade da natureza. Mas é nesse processo de aceitação da natureza do corpo que agem as propagandas das corporações de alimentos, criando uma relação que associa o açúcar e as gorduras à felicidade, e fornecendo um arcabouço para o entendimento do acúmulo de gorduras corporais como algo natural, e não sociocultural.

De fato, existe mesmo um padrão impositivo de magreza, sobretudo para mulheres. Mas o que é realmente cruel nisto é que a associação deste padrão estético ao padrão alimentar hegemônico é uma máquina de infelicidade. O indivíduo é convencido a acreditar que só pode ser feliz se alcançar uma interseção impossível entre um físico enxuto e uma alimentação gordurosa e calórica.

As grandes corporações gastam milhões todo ano para você aceitar a lógica de que engordar é  um fenômeno natural, espontâneo, e para reforçar a ideia de que você é oprimido por um padrão antinatural, que estaria em desacordo com sua biologia supostamente sedenta por carne, gordura e açúcar. Vide as propagandas da Coca-Cola e do McDonald’s, cujas mensagens publicitárias costumam dizer algo como “permita-se ser feliz e espontâneo engordando aqui”.

Existem numerosos casos em que o ganho de peso e de gordura ocorrem por razões puramente físicas, como em distúrbios, doenças e reações medicamentosas. Na maioria das vezes, porém, ele acontece quando se consome mais calorias do que se gasta, normalmente quando a alimentação é baseada em alimentos processados e de origem animal. Isto é, quando a comida vem dos pecuaristas e das grandes empresas de alimentação. Se visualizamos esse dado sociocultural (a alimentação da população) como se fosse um dado natural, ficamos impedidos de pensar e reformular a sociedade porque retomamos o precedente biologizante – o mesmo que leva à “constatação” de que a função natural da mulher é ser mãe, por exemplo. Essa sobreposição de aspectos biológicos da humanidade aos aspectos sociais está no cerne de teorias lombrosianas e eugenistas, que foram o braço pseudocientífico do racismo e do nazismo.

No afã de se libertarem da imposição do padrão estético de magreza, as pessoas correm o risco de seguirem as orientações das corporações de alimentos e ver esta liberdade justamente nos piores produtos alimentícios disponíveis, tanto do ponto de vista da saúde quanto do socioambiental e mesmo do sabor, em muitos casos. Daí corre-se o risco de uma aceitação sem problematização do ganho de gorduras e de peso pela população.

No coletivo, este fenômeno é uma ótima forma de ocupar vagas em hospitais, debilitando os sistema de saúde público e privado; de “financiar” as operações devastadoras dos oligopólios de alimento; e de fortalecer a ideia de que a sociedade tem por base a biologia, como fizeram os defensores do racismo.

Parece uma arapuca. E o brasileiro pode estar caindo nela direitinho. Em 2016, a revista científica Lancet publicou um estudo que afirmou que um quinto da população brasileira é obesa. Não se trata daquela gordurinha aqui ou acolá, que também pode ser danosa à saúde, mas de obesidade, que é realmente perigosa. Ainda segundo a revista, o Brasil figura entre os países mais obesos do mundo: entre os homens, só fica atrás de China e EUA; entre as mulheres o Brasil fica em 5º, atrás também de Rússia e Índia.

Enquanto a população engorda, deixa-se de pensar que tanto o paladar quanto o aumento do número de obesos são fenômenos mais sociais, não biológicos, e que a escolha da alimentação é cultural. Não existe apenas uma forma de comer nem de ser feliz e não é preciso aceitar a relação entre ingestão de gorduras e açúcar com a felicidade. Do mesmo modo, a ideia de um corpo magro como objetivo é danosa, visto que um corpo sadio deveria ser apenas uma mera e provável consequência de escolhas racionais, autoconscientes e livres.

A alimentação é, também, um ato político. Na escolha e no preparo dos alimentos, somos todos ativistas e não há neutralidade possível. Ao comprar a ideia que associa felicidade à alimentos calóricos e gordurosos, você escolheu um lado. Um lado perverso. E talvez você nem saiba.

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Imagem: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=48724045

Menos que escravos

A historiografia dá conta de que a escravidão indígena perdurou até meados dos anos 70.

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O Museu da Escravidão é um sonho antigo do Movimento Negro brasileiro. Recentemente, a secretária municipal de cultura do Rio de Janeiro, Nilcermar Nogueira, neta de Cartola e Dona Zica, falou com o prefeito da cidade sobre o tema. A ideia é que o museu seja no Porto do Rio, onde estão as ruínas do Cais do Valongo, o porto que mais recebeu negros escravizados das Américas.

Nada mais justo que a terrível história da escravidão negra seja revivida permanentemente em um museu, para que nada parecido se repita e para rememorar sempre que o Brasil deve políticas de reparação aos descendentes de negros escravizados. No entanto, essa demanda justa faz lembrar que não há nada parecido para rememorar a escravidão indígena.

Alegadamente, o auge da escravização de índios se deu na metade do século XVI. Os colonos – alguns brancos, muitos caboclos – se embrenhavam na mata em operações de caça e escravização de tribos inteiras, com várias famílias. Essas operações, chamadas “saltos”, passaram a ser repreendidas pela Coroa e pelos jesuítas, mas continuaram amplamente praticadas em larga escala por todo o território colonizado, obrigando os povos indígenas a trabalharem até a morte nos engenhos de cana.

Havia um dilema ético na Coroa portuguesa a respeito do tema, pois, ao tomar a terra para si e declarar seus habitantes como súditos, não fazia sentido moral escravizá-los. Por conta disso e da pressão jesuítica, a partir de 1570, esboça-se uma legislação proibindo a escravidão indígena. A lei ficou cheia de brechas (provavelmente propositais para não atrapalhar a empresa açucareira) e o pouco dela que sobrava era amplamente desrespeitado.

Além da escravidão propriamente dita, criou-se formas de “introduzir” os índios à força na sociedade – e sempre por baixo. Nas missões jesuítas, criou-se um campesinato forçado indígena, por meio da aculturação, e que não permitia opção.

O historiador Warren Dean conta que diversas leis fajutas foram aplicadas para, supostamente, acabar com a escravidão indígena, mas que, ainda assim, ela adentrou no século XIX.

“Os  monarcas portugueses diversas vezes haviam proibido sua escravização, e tentaram de novo de modo mais retumbante em um decreto que entrou em vigor na região da Mata Atlântica em 1758. Daí em diante, os missionários não teriam mais autoridades sobre as aldeias indígenas. Temendo-se, contudo, que os assentados nas aldeias imediatamente desaparecessem na floresta, os governadores foram autorizados a indicar administradores civis com autoridade sobre eles. Raro era o branco que assumiria tal responsabilidade sem o intuito de explorar ao máximo o trabalho dos nativos. Em consequência, muitas aldeias ao longo do litoral do Rio de Janeiro e do Espírito Santo tinham sido praticamente extintas em 1798” (Warren Dean. p. 168)

As informações da pesquisa de Dean se chocam com o aprendizado nas escolas brasileiras, de que a escravidão indígena havia terminado ainda no século XVI, graças aos jesuítas. Segundo o historiador, a chegada da corte portuguesa tampouco melhorou a situação. Por causa de interesses desenvolvimentistas, foi declarada guerra aos povos indígenas que viviam como caçadores-coletores. Ou seja, aos povos que praticavam uma economia sustentável em pequena escala. O plano da coroa era incrementar o garimpo de ouro e diamante no litoral e aumentar as pastagens de gado no interior de São Paulo (DEAN, p. 168).

A guerra aos índios fixou um prazo de 10 anos de escravidão de índios capturados. Depois, o prazo foi elevado para doze anos. Depois, para quinze. Se os escravos indígenas fossem crianças, o prazo só começava a contar a partir dos catorze anos. E isso após 1800. Esses escravos eram vendidos por um preço que equivalia a um sexto do valor dos escravos africanos (Warren Dean, p. 169) Em 1811, dois mil índios coroados foram escravizados em Ouro Preto de uma só vez.

Atenção para a data: 1811. Quando a ficção brasileira retrata esta época, não apresenta os escravos indígenas figurando nas cidades históricas mineiras.

Dean, ao traçar a história da devastação da Mata Atlântica, apresenta um relato da escravidão indígena perdurando até meados dos anos 1970. E não é só ele. A Comissão Nacional da Verdade do Brasil, que apurou crimes cometidos pela ditadura civil-militar ocorrida no Brasil entre 1964 e 1985, teve acesso a um documento que detalhou assassinato em massa, tortura, escravidão, guerra bacteriológica, abuso sexual e roubo de terras contra os indígenas brasileiros. O “relatório Figueiredo” foi encomendado pelo Ministro do Interior em 1967 e foi redescoberto no Museu do Índio. Os crimes teriam sido cometidos por latifundiários e pelo próprio departamento do governo para assuntos indígenas à época, o Serviço de Proteção ao Índio (SPI).

Diante de tantos dados que existem hoje, não se pode falar em escravidão no Brasil sem mencionar os índios escravizados. Enquanto o Brasil não reconhecer, nas políticas públicas e nas escolas, a escravidão infligida pelo Estado e pelo capitalismo brasileiro aos índios, estes terão sido menos que escravos.

Fontes:

 

A ideologia mortal

carnismo

O que aconteceria se você descobrisse que sua dieta colabora para criar enchentes, desertificação, desmatamento, milhões de refugiados ambientais e maus tratos a animais? Provavelmente nada. Isso porque o nosso modelo econômico criou e exporta uma ideologia chamada Carnismo. É  isso que propõe a psicóloga Melanie Joy.

Segundo ela revela em seu famoso livro “Why we love dogs, eat pigs and wear cows”, o carnismo é um conjunto de crenças coletivas que engloba vários mecanismos de defesa que impedem que a produção e consumo de carne feita nos padrões atuais seja questionada como dilema ético. Deste modo, o carnismo se comporta como ideologia dominante, discriminando e reduzindo aqueles que percebem sua atuação e fazendo com que debater a ética da produção e consumo de carne seja visto automaticamente como um assunto piegas, “coisa de vegetariano”.

No livro , Joy  encaixa esses mecanismos ideológicos de alienação em quatro categorias, que ela chama de “Os 4 Ns”. Com eles, a sociedade justifica o dilema ético do consumo de carne (nos padrões atuais) porque ele seria 1- Natural, 2- Normal, 3- Necessário  e 4- Bom (do inglês, nice).

1- O carnismo diz que comer carne é natural, pois somos onívoros. Mas ser onívoro não significa ter uma dieta baseada em carne. Os alimentos de origem animal comidos por nossos antepassados eram insetos e animais de caça e pesca apenas na quantidade necessária para a própria sobrevivência, enquanto nosso sistema econômico atual precisa gerar excedente, o que modifica completamente a escala. Fora isso, a justificativa do “natural” perde a força quando reivindicada por alguém que não vive mais em uma caverna.

2- Outro mecanismo de alienação do carnismo diz que a maioria das pessoas come carne, então este seria um hábito normal, dispensando o raciocínio acerca dos problemas causados. Nada de novo para quem já normalizou a escravidão,  o holocausto etc.

3- Apesar das provas e evidências citando a carne como causa de doenças, o carnismo tende a ver a falta de proteína especificamente animal como algo potencialmente perigoso à saúde. Logo, comer carne seria necessário, embora falte embasamento científico para isso e sobrem pesquisas relacionando o consumo de carne ao aumento de doenças coronárias, câncer, obesidade e diabetes.

4- O último argumento para não pensar sobre os efeitos da dieta com excesso de carne é que carne seria bom (nice), como se o paladar não fosse constituído culturalmente. E como se não fosse passível de ser reformulado diante de uma necessidade.

Sobretudo, além dos 4 Ns, o carnismo busca anular cognitivamente os outros seres que servirão de comida, reduzindo no imaginário social a capacidade deles de sentirem sofrimento. Assim, cria-se uma falta de identificação entre a carne e o bicho que deu origem a ela. Esta ligação, quando é feita, ocorre de forma idealizada, com mascotes e logotipos apresentando bichos vivos e felizes nos rótulos, que parecem se sobrepor aos bichos mortos do conteúdo.

Como qualquer ideologia dominante, parece que não pode haver vida fora do carnismo, obrigando os indivíduos a reproduzirem essas práticas. Os dados e estatísticas, no entanto, parecem mostrar justamente o contrário: é a vida que não poderá ser mantida nestes padrões. Atualmente, a pecuária responde por 51% das emissões de gases do efeito estufa, 91% do desmatamento da Amazônia, mais da metade do gasto de água em países desenvolvidos, 3 milhões de quilos de excrementos por minuto, pela tortura e morte de milhões de animais  e por 45% da ocupação de toda a área terrestre.

Levando em conta a proposta de Joy, é possível dizer que há uma ideologia mortal sustentando toda essa tragédia. Para a autora, portanto, melhorar o mundo passa por revelar os mecanismos de funcionamento da ideologia que sustenta esta dieta e, principalmente, reduzi-la ao máximo.